As chuvas que desabaram sobre o Rio Grande do Sul nos últimos dias, com pequenas interrupções das trovoadas e algumas aparições tímidas do sol, não só alagaram cidades, derrubaram pontes, interromperam estradas, causaram congestionamentos, fizeram ceder acostamentos e provocaram inundações em casebres, barracos, casas abrigos, palafitas e outras denominações de moradia. As águas torrenciais transformaram em tragédia a vida de milhares e milhares de pessoas em todo o interior do Estado e municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre, levando abaixo sonhos construídos ao longo de dias e dias de trabalho, retratados nos móveis destruídos, nos aparelhos eletrônicos destroçados, nos restos amontoados e que conseguiram escapar das chuvas. E fizeram renascer um sentimento, às vezes adormecido, de solidariedade com os atingidos pelas enchentes.
As reportagens televisivas, apresentadas em diferentes canais, mostravam pessoas de diferentes classes sociais saindo de sua comodidade, do interior de suas residências, não alagadas, para levar ajuda aos necessitados, doando cobertores, colchões, roupas de lã, agasalhos, travesseiros e quilos e quilos de alimentos. Em cada entrega, um pouco de carinho e afeto para os desabrigados, que perderam seus bens para a fúria das chuvas. Gestos de solidariedade com o próximo que podem significar um alento para aqueles que viram parte de suas vidas submersas nas águas descontroladas.
Assistindo aos depoimentos dos atingidos e até dos que foram prestar socorro, recordei de como é complicado e penoso ser repórter neste tipo de pauta. É impossível permanecer passivo nestas coberturas. É difícil não sair completamente transtornado destes locais onde ficam abrigados os que perderam tudo. É quase inviável não retornar para a redação depois destes assuntos sem uma vontade desmesurada de chorar. Mesmo que o jornalista tenha um controle fenomenal (e muitos têm, ou porque já nasceram assim ou aprenderam a exercitar pela exigência da profissão), inviavelmente depois de terminada a tarefa (matéria entregue, editada, finalizada), sente um aperto enorme no peito, uma tristeza imensa pelo sofrimento dos outros.
Lá pelos idos de 2005, durante um plantão de domingo no Correio do Povo, precisei cumprir uma destas pautas e fui ver em Alvorada e Cachoeirinha como havia ficado a vida dos moradores alojados em galpões, ginásios e outros locais. Lembro como se fosse hoje, que pensei que ali residia um pedaço do inferno, ao reparar naqueles cobertores servindo de paredes para separar os compartimentos e tentar conceder um mínimo de privacidade para pais, mães, avós e avôs, guris e gurias, meninos e meninas e nenês de colo. Olhar as famílias espremidas naquele espaço, completamente alheias ao supérfluo da vida. Entrevistar pessoas que haviam perdido quase tudo, menos a fé, menos a esperança, menos a força de seguir em frente e reinventar, reconstruir, recomeçar e acreditar.
Eu, sempre tão bem acomodada e dona de tudo do bom e do melhor, com itens de consumo burgueses, conhecendo tão perto a dor dos outros. Eu, sempre tão bem cuidada pela minha família e sem passar nenhum tipo de necessidade, vendo que a preocupação deles era simplesmente agradecer pelo fato de estarem vivos, estarem salvos, terem abrigos, terem doações, terem carinho e afeto. E eu, sempre tão agasalhada e protegida com roupas quentes, lidando com o pouco dos outros e sem muito poder fazer com a dor que emanava de cada olhar. E partilhei uma comoção indescritível ao ouvir as mães lamentando que perderam tudo, mas reforçando que o importante é que as crianças estavam bem e que iriam ter um colchão qualquer para seus sonos.
Quando voltei para a Redação, imediatamente redigi a matéria que já era cobrada pelo editor e conversei com o fotógrafo sobre a escolha da melhor opção de foto para a matéria que iria para a capa do jornal. Tarefa cumprida. Fechei as gavetas. Desliguei o computador. Despedi-me do editor, que ainda ficaria para finalizar seu trabalho. Pelo adiantado da hora, retornei de táxi para casa, sem esboçar nenhuma reação, sem ouvir o que o motorista comentava, sem ouvir as buzinas nas ruas. Estava entorpecida com o que tinha visto. E como fiz nestes últimos dias de chuvas, hoje, assumi minha parcela de culpa na destruição do planeta, prometi me empenhar mais em atividades corretas e ecológicas, rezei para que os desabrigados fiquem bem e agradeci pelo que tenho. Mas a dor daquelas pessoas jamais será esquecida.

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