“O povo é o rebanho. A mídia, o pastor.”
(Noam Chomsky)
Há exatos cem anos, nascia Orson Welles, o homem que inventou o viral. A TV engatinhava e a Internet ainda não tinha sido inventada, quando o jovem gênio de 23 anos fez a cidade de New York entrar em pânico. Era uma noite de domingo, 30 de outubro de 1938, e entrava no ar, na rádio CBS, o programa “Mercury Theatre”, com “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, apresentado por Orson Welles. E, em 30 minutos, metade da Costa Leste estava à beira da histeria.
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No dia seguinte, os jornais noticiaram os efeitos do primeiro viral da era pré-digital: centenas de milhares de pessoas nas ruas, com rifles, revólveres e máscaras de gás. Rodovias congestionadas por carros lotados de famílias, tentando fugir da iminente invasão alienígena. O casal John e Estela Paultz, de New York, foi um dos que foram tomados pelo pânico. Eles usaram seus últimos seis dólares em passagens de trem para Connecticut. Desembarcaram em New Haven, sem bagagem e sem dinheiro. Aflitos, olhavam para o horizonte, procurando pelas naves alienígenas.
Tudo começara quando os Paultzes sintonizaram o rádio para ouvir seu programa favorito de domingo à noite, “Mercury Theatre on the Air”. Mas o que ouviram foram boletins urgentes, anunciando que as praias de New Jersey estavam sendo invadidas por máquinas de guerra, vindas de outro planeta.
Os boletins seguintes eram ainda mais dramáticos, relatando que o Exército não conseguia deter os invasores e que uma nuvem de gás venenoso se aproximava de Newark, onde moravam irmãs e sobrinhos dos Paultzes. Mais tarde, Estelle lembraria, em carta enviada à CBS:
“Aquilo acordou os medos mais primitivos do desconhecido e nos privou de toda e qualquer razão. Tudo o que pensamos era escapar para onde seis dólares nos levassem.”
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Esta não foi a única carta recebida por Orson Welles. Mais de 600 cartas e 1.500 telegramas chegaram aos estúdios da emissora, após a transmissão de A Guerra dos Mundos. Mais tarde, em 1985, o material foi doado à Universidade de Michigan e está preservado no Arquivo Nacional, onde é objeto de estudos sobre histeria das massas e o poder de persuasão do rádio.
Como fez o historiador William Manchester, ao procurar entender o comportamento das pessoas naquele domingo de 1938. Orson Welles e sua teatralização geraram um clima de pânico, levando ouvintes à rua para alertar os vizinhos. Estes, assustados, ligaram para parentes e amigos em outras cidades. Que, por sua vez, se aterrorizaram por uma ameaça que não sabiam qual era. A teoria do pesquisador é a de um instinto primitivo, a urgência de alertar a tribo sobre um perigo iminente. Uma certa síndrome da presa, tão antiga como a linguagem do homem das cavernas.
Na época, o The Baltimore Sun entrevistou os ouvintes e não ouvintes do programa. Foi como em uma epidemia, com boatos varrendo o país, alarmando a todos, mesmo quem não ouvira o rádio nem sabia da falsa invasão. Orson Welles era um estudioso das emoções humanas e certamente não se surpreendeu com o pânico que provocou, pois sabia como reagimos diante do desconhecido. Seu viral profetizou os acontecimentos da década que chegava, a dos terríveis anos 40. Ele diria mais tarde:
“O homem é um animal racional que perde a cabeça quando chamado a agir de acordo com os ditames da razão. Eu mesmo, sou um motorista que se apavora quando chego aos 120 quilômetros por hora. E quanto mais me assusto, mais aumento a velocidade.”

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