“Eu nunca disse, ‘Quero ficar sòzinha.’
Eu falei, ‘Quero que me deixem em paz”.”
(Greta Garbo)
Depois de pronunciar a frase famosa, ela abandonou Hollywood, se recolheu às sombras da reclusão, se transformando em uma diva perfeita. Quando faleceu, 50 anos depois, sua foto estava na capa da TIME com o epitáfio “A Última Dama Misteriosa”. Na realidade, Greta Garbo não foi a última nem seria a única celebridade a recusar a luz dos holofotes e esgueirar-se para o anonimato. Ela pertence a uma extensa galeria de bizarros personagens que não conseguimos entender.
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Greta Lovisa Gustafson nasceu em 1905, em um subúrbio pobre de Estocolmo, e trabalhava como balconista, quando foi descoberta por um diretor de cinema. Vinte anos mais tarde, a deslumbrante sueca era uma das grandes estrelas do cinema, hipnotizando multidões ao redor do mundo com sua androgenia e voz rouca. Então pronunciou uma primeira e emblemática frase:
“Give me a whiskey.”
Logo ofuscada por aquela que a imortalizou, em Grand Hotel, ao lado de John Barrymore:
“I vant to be let alone.”
O filme ganhou o Oscar de 1932 e a frase ficaria como um enigma, depois decifrado como pré-anúncio de seu crespúsculo voluntário. Mas, mesmo no topo do estrelato em Hollywood, Greta Garbo já era A Esfinge Sueca. Ela recusava pedidos de entrevistas, não assinava autógrafos e mandava jogar no lixo as milhares de cartas que chegavam em caminhões à sua porta. Não frequentava festas e cerimônias de premiação, nem para receber seu Oscar honorário, em 1955. Por ironia, a aversão aos holofotes a fez o tema favorito das revistas de variedades.
Então, em 1941, com 36 anos, Greta Garbo anunciou que estava se retirando de cena. Começava uma longa reclusão que durou até sua morte, em 1990, em seu apartamento da rua 52, em New York. Vivia sozinha, cercada de objetos de arte, móveis raros e pinturas de mestres impressionistas.
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A galeria de famosos que optaram pela solidão é extensa: Oscar Wilde, Emily Dickinson, Marcel Proust, Emily Bronte, Bobby Fischer, Glenn Gould, Howard Hughes, J.D. Sallinger, Charles Chaplin, Stanley Kubrick…
Para Aldous Huxley, mentes poderosas e originais serão sempre seduzidas pelo que ele denominava de A Liturgia da Reclusão. Muitos dos grandes solitários conseguiram seu objetivo e foram rapidamente esquecidos. Já nos tempos atuais, renegar ao sucesso e seus brilhos provoca estranheza e repúdio. Como é pauta obrigatória da mídia, a celebridade que busca o isolamento é vista como excêntrica, ou maníaco-terminal. Assim foi com Howard Hughes, o bilionário que fez de tudo para merecer opróbio e desconfiança. No entanto, tinha coerência, pois foi um excêntrico antes, durante e depois da fama. Obsessivo ao extremo, mergulhava inteiro em seus projetos. Assim foi, ao projetar, construir e pilotar o maior avião do mundo. Ou quando desenhou um sutiã revolucionário, capaz de acomodar o busto generoso de Jane Russel, em O Proscrito. Em 1947, se isolou em um quarto escuro, se alimentando de chocolates e leite. Mais tarde, muda-se para a cobertura de seu luxuoso hotel em Las Vegas. Não recebe ninguém e gerencia suas empresas por bilhetes, enfiados sob a porta e recolhidos por secretários. Quando chega o melancólico fim, Hollywood fica chocada, sem entender a tragédia de seu filho prodígio.
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Entre os escritores que buscaram a reclusão, existem casos gêmeos – e contraditórios. O francês Marcel Proust passou 17 anos recluso, escrevendo as 3.300 páginas do que seria sua obra-prima, Em Busca do Tempo Perdido. Do outro lado do Atlântico, outro gênio da literatura, J.D. Salinger, publica uma única – e curta – novela, O Apanhador no Campo de Centeio, além de outros 13 contos. Mas suficiente para elevar seu Holden Caulfield ao patamar de um dos grandes personagens da ficção moderna. Em 1959, o escritor se retira e não publica mais nada até sua morte, em 2010. Pouco se sabe do período em que viveu numa modesta cabana, em New Hampshire, sem água corrente nem calefação.
Durante os anos anteriores à sua morte, Marcel Proust raramente deixava o isolamento de seu apartamento parisiense, forrado de cortiça à prova de som. E, quando se encontra com James Joyce, em 1922, os dois trocam poucas palavras. Joyce comentaria mais tarde:
“Os dias de Proust estão apenas começando e os meus, já chegam ao fim.”
James Joyce era um escritor de gênio – mas um mau profeta. Proust morreria pouco depois do encontro. E Joyce viveria até 1941, em tempo de escrever grandes livros, como Dubliners e o mítico Ulysses.

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