“Não espere pelo dia do juízo final.
Ele está acontecendo todos os dias”.
Albert Camus.
Em agosto de 1949, quando visitava o Brasil, Albert Camus foi levado por Oswald de Andrade a Iguape, onde se realizava a festa do Senhor Bom Jesus. Com os hotéis lotados, se hospedaram em um quarto de hospital. Da visita, nasceu o conto ” La Pierre qui pousse”, onde o escritor conta, com ironia, sobre uma pedra milagrosa encontrada na praia, em 1647. Segundo a lenda, apesar de ter lascas retiradas pelos romeiros por três séculos, a “pedra que cresce” mantém seu tamanho original.
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A visão crítica de Albert Camus, como um estrangeiro onde quer que estivesse, foi traço constante em sua obra. Nascido na Argélia, viveu à sombra de pobreza, doenças e tragédias. Seu pai morreu na França, na I Guerra e o bairro operário, onde a família vivia em Argel, assistiu ao massacre de muçulmanos, na guerra de descolonização da Argélia. Em 4 de janeiro de 1960, com 47 anos incompletos e prestigiado como um dos grandes escritores franceses modernos, Camus morre em um acidente de carro, perto de Paris.
Seu biógrafo, Olivier Todd, em “Albert Camus, Uma Vida”, relatou:
“A 24 quilômetros de Sens, na Rodovia 5, entre Champigny-sur-Yonne e Villeneuve-la-Guyard, o Facel-Véga, em uma manobra súbita, sai da estrada, se choca contra um grande plátano, capota e se desmantela. O relógio do painel registra a hora da morte de Albert Camus: 13h55. Aos amigos, ele dizia que não existe nada mais escandaloso do que a morte de uma criança e nada mais absurdo do que morrer em um acidente de automóvel”.
Muitos anos depois, a intensa militância política do escritor ainda assombrava sua memória. Um escritor checo, Jan Zabrana, em diário póstumo, escreveu que Albert Camus teria sido assassinado por agentes secretos da então URSS, devido a suas ferozes críticas aos massacres ocorridos na revolução húngara de 1956. Em artigos, ele atacava o regime soviético, com citações do poeta norte-americano Walt Whitman:
“Sem liberdade, nada pode existir”.
Inevitavelmente, passou a ser hostilizado por estalinistas e pelos intelectuais simpatizantes do comunismo. Em 1957, ganha o Nobel de Literatura, sem abdicar de sua postura, o que leva seus críticos a chamá-lo de Humphrey Bogart da literatura francesa. Ao discursar no ato de premiação, lamenta estar sob a luz dos holofotes e pede para ser visto como um simples escritor:
“Um homem quase jovem, rico apenas em dúvidas e que ainda não concluiu seu trabalho como escritor”.
Dizia ser solitário e solidário com princípios intactos, mas ainda acreditando na esquerda, “apesar dela e de mim mesmo “. Mesmo assim, a gauche francesa, com Jean Paul Sartre à frente, o atacava publicamente, por não usar a fama e o Nobel para defender bandeiras políticas, como a independência da Algéria, a qualquer preço.
Sentindo-se coagido, Camus volta à África, se isola e escreve. Um rascunho incompleto da novela autobiográfica Le premier homme, foi encontrado junto ao seu carro destroçado e depois publicado por sua filha. Mesmo sem a revisão do autor, é considerada por muitos críticos uma obra maior, no patamar dos aclamados A Peste e O Estrangeiro. Em um dos trechos finais, ele descreve o autoexílio na Algéria:
“Forcei-me a viver como os outros para parecer como eles. Eu disse o que era preciso para unir pessoas, mesmo quando me sentia um estranho, e no final, a catástrofe chegou. Agora, caminho entre ruinas, como um estrangeiro, desprezado e sozinho, mas resignado em minhas singularidades e fraquezas. Mas, ainda é preciso reconstruir a verdade, depois de ter vivido mentiras por tanto tempo”.
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