Um gourmet chamado Jules

Por José Antônio Moraes de Oliveira

 

"As memórias que mais nos

gratificam serão sempre as do paladar"

Georges Simenon.

O escritor Georges Simenon projetou em seu personagem mais famoso a maior parte de seus apetites e predileções à mesa. Quase sempre, focada na mais tradicional cozinha francesa. Ele leva o Comissário Jules Maigret a percorrer bistrôs e cafés dos dois lados do Sena. Por coincidência, os mesmos que frequentava em suas temporadas parisienses. E transforma o Inspetor Lapointe, constante companheiro de Maigret em um aficionado da Bonne Table. No intervalo de investigações, eles fazem uma pausa para almoçar no Au Vieux Pressoir, um bistrô tradicional no Boulevard de Grenelle. Na novela Le Voleur de Maigret, os dois pedem o mesmo prato, Chaudrée Fourasienne, a sopa de peixes, típica da região de Charante. E para acompanhar, o Comissário escolhe um vin blanc da mesma região.

O lugar deve ter sido um dos favoritos de Simenon, pois ele faz Maigret retornar na novela Cécile est morte. Ele está sózinho e escolhe um Gigot de pré-salé e uma garrafa de Bordeaux rouge. E se demora em uma mesa com vista para o boulevard, enquanto saboreia um Vieil Armagnac. Mas por vezes, o Comissário gosta de variar, como quando vai comer em uma cantina italiana perto da Rue de l'Etoile, o Chez Gino. Ele está às voltas com um caso complicado em Un échec de Maigret e tem em sua companhia a criminologista Martine Gilloux. Pedem alguns hors-d'?uvre, enquanto aguardam o Spaghetti Milanaise.

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No entanto, quando ocasionalmente sai para jantar fora com Madame Maigret, o personagem cede às preferências da mulher. Eles vão a um restaurante alsaciano da Rue d'Enghien, onde Maigret escolhe o que ele chama de "une choucroute comme il les aimait", enquanto Madame Maigret prefere algo mais leve, La potée Lorraine.

Em seu livro "Paris chez Simenon", Michel Lemoine fez um minucioso roteiro dos lugares frequentados pelo Comissário Maigret em Paris. Ele enumera nada menos do que 350 endereços, entre bistrôs, restaurantes, brasseries, bares e cafés. O escritor se deu ao trabalho de mapear os lugares prediletos do comissário-gourmet e diz que a maioria ficava no 9º Arrondissement, seguido por Pigalle, Place Clichy, Rue Fontaine e Montmartre.

O autor pesquisou a fundo os apetites do personagem, revelando que poucas vezes ele se contentava com uma refeição frugal. Acontecia quando estava vigiando uma janela do outro lado da rua e vai a uma brasserie para um rápido Sandwich au jambon et au fromage, sempre acompanhado por uma bière alsacienne. Mas, quando convoca a Brasserie Dauphine, o menu não contempla frugalidades: além de hors-d'?uvre variados, como Petits Merlans de Bretagne e Filets de Harengs, a bandeja que chega ao Quais des Orfévres é mais substanciosa, a começar com o clássico Ris de Veau aux Champignons, assim com um Merlan de Bretagne para reanimar os exaustos inspetores. Quanto a Janvier, ele segue o exemplo do Comissário ao revelar predileção por Asperges et de la raie au beurre noir, que os dois almoçaram em Maigret et les Vieillards. Não poucas vezes, quando se vê envolvido em um caso mais intrincado, o Comissário ordena para si as Andouillette avec purée et Pommes frites, seguido de Tripes à la mode de Caen. E nem sempre lembra a recomendação de Madame Maigret de evitar doces e inclui um Gâteau aux amandes como sobremesa.

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O autor Simenon era um grande apreciador de frutos do mar e de peixes preparados à moda normanda. Suas preferências gastronômicas se revelam quando Jules Maigret vai ao Champs-Elysées em busca de um lugar especializado em pescados em Maigret s'amuse ou quando, fora de Paris, descobre um pequeno restaurante em Bougival, às margens do Sena, onde se deleita uma simples fritada de sardinhas, acompanhada de um Rosé de Beaujolais. Ele se diz saudoso do prato, que lhe faz lembrar a infância no campo. Uma fuga explicada por Simenon:

"Ele precisava escapar do Quai, respirar o ar do tempo,

descobrir pessoas diferentes do submundo de Paris.

E precisava voltar aos cafés do interior, passando horas,

no balcão de zinco, bebendo um Demi ou um Calvados,

dependendo do estado de alma."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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