Maria do Carmo Bueno: Com as feras

Durante mais de uma década, ela entrou como quis na casa de todos os gaúchos, como apresentadora do Jornal do Almoço

Foram mais de 12 anos entrando na casa das pessoas na hora do almoço, através da TV, para apresentar o Jornal do Almoço, marcante naqueles tempos. Quem viveu, não tem como esquecer da voz, estilo, simpatia e desenvoltura de Maria do Carmo Bueno na bancada do estúdio da RBS. Com um perfil em que se destacava por uma luta incansável pela valorização da mulher e todas as questões que envolvia essa figura, influenciou muito as mulheres gaúchas, desde suas críticas e conselhos até o padrão de beleza (seu cabelo era o último grito da moda na época) . Talvez nem seus pais imaginassem que chegaria a tanto quando saiu da terra natal, Santa Bárbara do Sul, ainda criança, embora mamãe, dona Didi, intuísse que a filhota só teria melhores chances e perspectivas se viesse para a capital. O pai resistiu, mas dona Didi, determinada como uma guerreira, decidiu que era hora de tentar a sorte na cidade grande. Vieram, Maria cresceu e logo conseguiu seu primeiro emprego. Vendedora de discos, na loja Artes Reunidas. Aos 21 anos, decidiu cursar Jornalismo, na Famecos da PUC.
A escolha pela profissão se deu quando ainda freqüentava as aulas do ginásio, no colégio Luís Dourado. Ela relembra ainda hoje um artigo do jornalista Davi Nasser, publicado na revista O Cruzeiro, que abordava a importância dos meios de comunicação na vida das pessoas. A leitura foi determinante para confirmar sua opção profissional. Maria do Carmo formou-se, em 1972, nas três áreas de comunicação social (RP, Jornal e PP), pois ainda cursou o último ano em que a formação incluía a polivalência. Durante o tempo de faculdade já passou pela vitrine da fama, ao vencer a disputa pelo título de Rainha dos Jogos Olímpicos da PUC (tinha olimpíada interna, naquele tempo!) e participar do concurso Miss Porto Alegre. Assim, da Famecos, saiu pronta para o mundo "glamouroso" da comunicação. No primeiro momento, dedicou-se à Publicidade. Seu primeiro trabalho na área surgiu na agência MPM. "Trabalhei lá como secretária da diretoria, ligada diretamente ao seu Antônio Mafuz", lembra.
No entanto, depois de três anos atuando com propaganda, o gosto pela "telinha" falou mais alto e Maria do Carmo começou a trabalhar com o jornalismo. A oportunidade surgiu no concurso "Caras novas para a televisão", através de um anúncio no Jornal do Comércio. Em 1974, após uma seleção, Maria do Carmo foi chamada para trabalhar na TV Difusora, hoje Bandeirantes, para fazer o Jornal Comunicação, com duração de 15 minutos.
Do mundo para a telinha
Sua ascensão profissional começava a andar mais rápido. Depois de apresentar por três meses o telejornal, ela foi convidada para participar do Câmera Dez, um dos mais prestigiados programas da televisão gaúcha na época. Foi trabalhar com, em sua própria definição, "um time de feras do jornalismo", como Ana Amélia Lemos, Ieda Maria Vargas, Sérgio Schuller, Flávio Alcaraz Gomes e Adroaldo Streck. "Como sou sempre muito metida, corajosa e audaciosa, não fugi do convite, aproveitei a oportunidade de trabalhar com esses grandes nomes", comenta ela. Ela atribuiu à sua "audácia e coragem" o fato de receber depois, em 1976, o convite para apresentar o quadro "Variedades", dentro do Jornal do Almoço, na RBS. "Foi um período marcante, pois temas polêmicos ganhavam destaque na mídia", diz ela.
Ficou 18 anos na RBS, onde foi âncora do Jornal do Almoço (12 anos), apresentou o programa TV Mulher, o quadro Gente e fazia o RBS Revista (juntamente com Carlos Kober, atual diretor do programa do Faustão, da Rede Globo). E, como naquela época ainda se admitia, atuou ao mesmo tempo na TVE, onde apresentava programas como "A Casa é Sua" e "Ponto a Ponto". Já consagrada como uma das principais figuras de telejornal, Maria do Carmo encarou um novo desafio, ou, segundo ela, uma conseqüência da TV: o rádio. Fez o programa "A hora e a vez da mulher", na Rádio Gaúcha, e "Maria do Carmo", na Rádio Guaíba.
O parlamento
Em 1990, Maria do Carmo resolveu fazer uma pausa em sua trajetória de comunicadora para concorrer a vice-governadora do Estado, na chapa liderada pelo então deputado federal Nelson Marchezan. Derrotada na campanha, voltou para a RBS e seu Jornal do Almoço. Depois chegou o momento em que achou que era hora de mudar o rumo de sua vida. Em 1994, a jornalista resolveu candidatar-se a deputada estadual. Eleita, também fechou sua loja de confecções femininas a MC Mulher, que funcionara durante 18 anos. "Eu fechei quando entrei para a Assembléia Legislativa em 1995. Eram muitas coisas, o mandato, que exigia dedicação exclusiva, a loja, minha vida e casa. Tive que optar", conta ela.
Durante dois mandatos (1994 a 2002) como deputada, seu principal objetivo foi atuar em defesa dos direitos das mulheres. "Foram oito anos de parlamento, a missão já está cumprida", completa ela, destacando que neste período em que esteve na política, nunca sentiu falta do seu trabalho na televisão. "Sou muito consciente nas minhas decisões, sempre almejo novas etapas e nunca me arrependo dos passos dados", revela. O mesmo aconteceu recentemente, no ano passado, quando quis se afastar da política e voltar novamente para atuar em frente às câmeras. No dia 31 de janeiro deste ano, desfiliou-se do seu partido, o atual PP, e montou uma empresa de comunicação, a MG Comunicação Integrada.
Em agosto deste ano, depois de 29 anos, a jornalista Maria do Carmo voltou à emissora onde iniciara sua trajetória profissional: o Canal 10 de Porto Alegre, agora Rede Bandeirantes. Para alegria de seus fãs, ela estreou novamente na TV, comandando o programa Lado a Lado, na Band TV e na rádio Band. Ela revela que estava com planos de voltar para a TV no segundo semestre, e o convite da Band veio em tempo para um novo recomeço na área de comunicação. "Eu achei o máximo, era bem o que eu tinha como projeto em mente: fazer um programa bem descontraído, com uma forma bem solta de apresentação", ressalta. Muito animada com o seu retorno, ela comemora a cada programa levado ao ar - recebe flores, telefonemas e mensagens diariamente com votos de sucesso para a nova fase. "Estou impressionada com a receptividade do público, é muito bom saber que o objetivo está sendo atingido".
Por trás das câmeras
Maria do Carmo, 54 anos, é casada há 11 anos com Carlos Armando Garcia. Tem dois enteados, Ênio, de 26 anos, e Lilian, de 23 anos. "Eles são super legais, meus amigos, vibram com as nossas coisas". Seu dia começa bem cedo, às 6h, quando acorda, toma um café (de preferência acompanhado de um pãozinho preto com mel e manteiga) e faz a leitura dos jornais. Depois, sua tarefa é escolher as roupas que vestirá no programa. Feito isso, segue para os estúdios da Band. Antes de entrar no ar, o ritual de sempre: se veste, arruma o cabelo e faz a maquiagem.
Após o término da gravação, outro ritual bem-vindo, o de reunir-se com o pessoal da produção para avaliar o programa realizado. À tarde ela vai para a MG Comunicação, onde tem duas funcionárias que a auxiliam nos trabalhos. Costuma ficar em casa à noite. "Sempre gosto de chegar em casa, tomar um bom banho e jantar com meu marido. Ele prepara as refeições, e eu só fico apreciando sua arte de cozinhar. Ele é um especialista". Uma de suas paixões é mexer com plantas no jardim e na horta do pátio de sua casa. Mas revela: "Os vasos estão sempre com rosas e quem cuida é meu marido, que sabe a hora certa de cortar e podar as flores". Do que ela gosta também é de arrumar a casa. Do signo de virgem, organiza todos os armários para garantir que tudo esteja no seu devido lugar. "Sou extremamente organizada, a minha casa tem que estar sempre em ordem", diz. Mas o que gosta de fazer mesmo é ficar em casa, assistindo um bom filme ou TV, além de ler livros. Na cabeceira, uma obviedade: sempre há alguma obra com assuntos relacionados à figura da mulher. Ela justifica as leituras destacando que a questão da mulher já é um perfil imprimido naturalmente por ela, tanto nos seus trabalhos quanto na sua vida pessoal. O último livro lido foi "Mulher daqui pra frente", de Marina Colasanti. Como toda mulher, também admira e se encanta com uma obra de arte, e nesta área faz questão de destacar as esculturas da artista Glória Corbetta. A capital gaúcha, além de ser seu "porto seguro", é a outra paixão de sua vida. Se fosse morar em outro lugar do mundo, ela escolheria a Espanha, e do Brasil, Florianópolis. Mas garante que será muito difícil "arredar o pé de Porto Alegre".
O espelho da mulher
Maria do Carmo diz que a luta pela valorização da mulher na sociedade é inseparável de sua trajetória profissional e pessoal, garante que não tem idéia da dimensão do alcance de seu trabalho, mas acredita que muitas mulheres já mudaram suas vidas somente por assistir seus programas. "Só os depoimentos das mulheres em relação a alguma coisa dita por mim, já são muito gratificantes". Define-se como uma pessoa cujas qualidades são fidelidade e sinceridade. "Sou um pessoa muito sincera, tenho pavor de pessoas falsas", enfatiza. Considera seu perfeccionismo como um defeito, já que exige e cobra muito de si mesmo e dos outros que a rodeiam. E, ao comentar os êxitos de sua carreira, assegura que "confiar no próprio taco" é a chave do sucesso. Como projeto do momento, a jornalista não hesita em desejar que o "Lado a Lado" seja um grande sucesso. "Eu quero que o programa seja um compromisso diário do telespectador e do ouvinte". Para o futuro, além do crescimento de sua empresa de comunicação, Maria do Carmo diz que o seu desejo já foi realizado: voltar para a TV. "Agora quero me dedicar integralmente à minha empresa, associando a TV e o rádio ou vice-versa".

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