Jorge Avancini: Desafio colorado

Profissional fala do amor que sente pela família, pelo trabalho e pelo esporte

Por Patrícia Castro



Jorge André Avancini sempre esteve cercado de celebridades, lugar onde muitos fãs gostariam de estar acompanhando ídolos da infância, como os Trapalhões, o cantor Rod Stewart ou o piloto Ayrton Senna. Hoje não é muito diferente: é a equipe do Sport Club Internacional que vive à sua volta. Como diretor de Marketing do clube, foi peça fundamental no esforço que levou o Inter a conquistar a marca de 104 mil sócios-torcedores, primeiro do país e sexto no mundo com esta marca.

O profissional, que gosta de fazer trabalhos manuais e que arruma objetos em casa para extravasar a tensão do dia a dia, abre o coração ao falar da família, do trabalho, de lazer e esporte. Confessa que passou por um período de indecisão quando cursou Engenharia e Física, que abandonou pelo caminho ao descobrir que sua vocação estava mesmo na Administração. Formou-se nesta área, em 1983, pela Faculdade Porto-Alegrense (Fapa), e ainda cursou uma Pós-Graduação em Marketing pela PUC do Rio de Janeiro.

Dono de uma voz que parece de locutor de rádio e esbanjando alegria, o filho mais novo do comerciante Augusto Braga Avancini e da dona de casa Gladys Costa Avancini diz que está feliz com a profissão, mas que se considera um publicitário frustrado, pois sempre esteve do outro lado do balcão. "Talvez esta seja uma das decepções da minha carreira", confessa.

Com mania de organização, conta que é persistente e teimoso e que, quando quer conquistar um objetivo, vai atrás e não desiste fácil. Como defeito, o profissional destaca que falta uma posição de ser "mais político". "Muitas vezes com ideia de querer acertar, eu acabo sendo mal-interpretado e compro algumas brigas", diz. Já a disponibilidade de sempre aprender é destacada por ele como uma das suas qualidades: "Devido à minha atividade, tenho que estar sempre plugado no que está acontecendo, então acabo sendo um eterno aprendiz".
Mulheres da casa

A facilidade em se adaptar aos diferentes ambientes é outra das suas características marcantes. Atributo que pode ser percebido quando Avancini fala como aprendeu a conviver cercado de três mulheres em casa, com suas manias e diferenças. É casado, ou melhor, "muito bem casado", conforme destaca, com a publicitária Denise e explica que, junto com as filhas, a estudante de Administração Camila, de 23 anos, e a estudante de Design de Moda Júlia, 18, forma as mulheres de sua vida.

É com visível satisfação que conta como conheceu a esposa, quando trabalhavam na Souza Cruz. E que fica feliz ao ressaltar que a relação perdura há 26 anos "com muito carinho, amor e respeito". "Logo que nos conhecemos acabou pintando um clima diferente", detalha. "Em menos de um ano já estávamos casados, nos mudando para o Rio de Janeiro e, desde então, não nos desgrudamos mais."

Assim, feliz, quando não está dando aula na ESPM ou trabalhando no Inter, Avancini aproveita os raros momentos de folga para ficar em casa, colocando suas coisas em dia e convivendo com a família. As idas ao cinema para "assistir filmes divertidos que fujam dos dramalhões", e jantar em restaurantes fazem parte da rotina familiar.

Cozinheiro esporádico, o executivo confessa que entre suas preferências gastronômicas estão pratos italianos, como massas e pizzas, e o indispensável churrasco. "A sobremesa tem que ser sorvete. Sou apaixonado", conta. Porém, para que todos estes carboidratos e doces não pesem na balança, já que ele acha que está um pouco acima do peso, pratica aeróbica e musculação toda semana. "Às 7h30 eu já estou na academia do Inter, até porque a idade vem chegando e o peso vai aumentando, então treino forte para poder tomar uma cervejinha no final de semana", brinca.
Colorado, colorado

Para relaxar, Avancini também foca sua atenção na leitura de bibliografias mais técnicas e de história. Indica como um livro importante 'Personal Branding, Construindo sua marca Pessoal', do publicitário Arthur Bender, e acrescenta que, atualmente, seu livro de cabeceira é 'A bola não entra por acaso', de Ferran Soriano, um dos responsáveis por revolucionar o uso da marca do Barcelona. Avancini acredita que a história é muito parecida com a que o Inter vem vivenciando nestes últimos três anos.

Ele chegou ali em 1998, como conselheiro. Participou da gestão de Ferando Miranda no Marketing, e atuou como diretor-colaborar por cinco anos. Também exerceu o cargo de vice-presidente de Marketing, como colaborador não remunerado. Dez anos depois, quando o clube passou por um processo de profissionalização, assumiu como diretor de Marketing, desta vez reumunerado, cargo que ocupa atualmente. "Tive a possibilidade de fazer alguns projetos interessantes aqui, como o Centenário do Inter e a campanha de 100 mil sócios, que é uma referência no Brasil", orgulha-se.
Tino comercial

Foi do pai, que era diretor comercial das Lojas Guaspari, que acredita ter herdado o tino para esta área de marketing e vendas. Já aos 12 anos começou a realizar trabalhos temporários de final de ano nas lojas do magazine. Passou dois anos trabalhando em uma fábrica de fazer bandeiras e atuou como arte-finalista na antiga agência Forma, atendendo a contas como a da extinta rede JH Santos. Foi nesta experiência que Avancini despertou para área de Marketing, mas antes que decolasse no setor teve que servir ao Exército

Quando saiu do CPOR, tinha ganhado um carro do pai. Para manter o carro e uma rotina de um jovem que gosta de festas e namoros, foi trabalhar na Indústria de confecções da família, a Fernando Costa e Cia Ltda. "Descobri que não queria ser professor de Física, abandonei a escola que dava aula e consegui equacionar o horário de trabalho com a faculdade", explica. Quatro anos trabalhando em família foram suficientes para perceber que queria alçar voos mais altos. Ingressou na área comercial dos Correios e Telégrafos, e lá trabalhou como técnico de informação.
Cigarro, cerveja e futebol

Ao ver uma vaga no jornal para trainee de Marketing - e mesmo sem saber o que era -, Avancini decidiu inscrever-se e foi aprovado para trabalhar na empresa Souza Cruz. Relembra que foi uma grande escola, onde aprendeu ferramentas que até hoje lhe são úteis, como posicionamento de marca, área de eventos e técnicas de vendas.

Na fábrica de cigarros, foi supervisor de vendas, gerente de promoções e merchandising para o Rio Grande do Sul. Em 1985, foi transferido para o Rio de Janeiro, onde assumiu a área de itens promocionais. "Este trabalho me possibilitou conhecer o Brasil inteiro e fazer minha primeira viagem internacional", registra ele. Ainda na cidade carioca, foi convidado para ingressar na Pepsi-Cola, como gerente de Marketing, cuidando dos estados do Sul e do Nordeste. Dessa experiência, destaca o lançamento da Diet Pepsi, com o cantor Rod Stewart, o patrocínio da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1990, e as promoções de volume como a 'Achou e Ganhou', com os Trapalhões. "Esta foi uma vivência muito legal. Uma bela experiência", recorda.

O retorno a Porto Alegre foi motivado pelo convite de Ricardo Vontobel, para trabalhar na Vonpar como diretor de Marketing. Ficou por quatro anos na empresa, saindo para montar a Jorge Avancini Assessoria de Marketing e Serviços, voltada para área de vendas, distribuição e marketing, que toca até hoje em paralelo com as atividades no Internacional.
Desafios do Marketing

Quando chegou ao clube colorado, Avancini teve como primeiro desafio conseguir criar uma cultura de marketing e recuperar a confiança e autoestima do torcedor. "Meu grande desafio foi assumir uma instituição que estava com sérias dificuldades financeiras, sem cultura de marketing, sem investimentos e sem recursos, e trazer para o quadro funcional ideias de empresa privada", relata. Em 2002, o clube tinha 5 mil sócios e estava sem ganhar títulos. O setor entrou em cena para equacionar a cultura interna, buscar a valorização do torcedor e tentar atrair novos associados e clientes, além de gerar receita para conquistar um espaço dentro do futebol moderno. "Não foi fácil, mas conseguimos", desabafa.

Entre tantas histórias, Avancini lembra de uma situação, vivida em 1988, com o cantor Rod Stewart, que veio ao Brasil fazer uma turnê para o lançamento do novo produto da Pepsi. O profissional foi destacado para coordenar o evento, e descobriu o quanto é complicado conviver com um ídolo e com suas manias. O artista estava gravando um comercial no Rio de Janeiro e, ao final tinha que ir direto para Florianópolis, onde faria um show. "Para agilizar o processo, fretamos um avião, porém, no caminho entre o Pão de Acúcar e o Aeroporto do Rio, ele resolveu pegar um carro e acabou sumindo por seis horas. Isto atrasou toda nossa programação", recorda.

Outra história envolve também a Pepsi, desta vez como patrocinadora da Copa do Mundo em 1990. "A equipe que iria viajar para a Itália para disputar o campeonato fez uma foto oficial tapando a marca da Pepsi, aquilo ali gerou um transtorno tremendo, e eu tive que gerenciar isto". Já uma campanha de final de ano feita com os Trapalhões foi, para Avancini, uma satisfação enorme, pois pôde conviver com pessoas profissionais, divertidas e corretas. Ainda hoje festeja o bom resultado: "Com os Trapalhões foi realizado um trabalho fantástico. Eu pude conviver com os meus ídolos da infância e tudo funcionou perfeitamente".
Desistir nunca

Para a próxima década, o profissional espera continuar no Inter, mas daqui a quatro anos quer estar em plena atividade e envolvido diretamente com o projeto da Copa do Mundo. "A Copa é uma grande oportunidade neste mercado, que vai trazer um legado fantástico para onde ela acontecer".

Posicionar sua consultoria para a área do Marketing Esportivo também está nos planos de Avancini, assim como o livro que está escrevendo sobre negócios no futebol. Quem sabe enveredar também para o lado das palestras? Na verdade, também é o que faz hoje, mas não com a intensidade que gostaria. E revela que daqui a uns 10 anos espera virar um palestrante por este País afora e poder viver disso, "para dar espaço para esta gurizada nova".

Da família, só acalenta um desejo: "Tudo o que espero é ver o sucesso de minhas filhas. É uma das grandes satisfações que terei". Com 56 anos, recém-completados em janeiro, tem como lema de vida o fato de não desistir nunca. Revela que ainda não se sente satisfeito, pois para ele a satisfação vem na medida em que se constroem caminhos. "Sou um cara em constante busca e inquietação e por isto não tenho como me sentir satisfeito. Isto para mim é pontual", diz.
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