Lucídio Castelo Branco: Do combate ao sossego

Testemunha de alguns dos momentos mais difíceis da história política brasileira, hoje ele desfruta de uma vida tranqüila

Aos 81 anos, não lhe falta disposição para relatar os fatos vividos e detalhar com carinho as lembranças. Nascido em Teresina, Piauí, em 13 de novembro de 1926, Lucídio Castelo Branco morou no Rio de Janeiro de 1939 a 1949, quando veio para Porto Alegre. Desde então, são muitas histórias para contar a respeito de sua longa experiência como repórter. Tantas que renderam um livro, "Da memória de um repórter" lançado em 2002, no qual relata os principais episódios em 48 anos de trabalho. A obra ainda resgata uma parte da história política vivida pelo jornalista e conta suas experiências em coberturas políticas, sua grande paixão até a chegada da censura nos anos 60 e 70.


Gaúcho de coração e por opção, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (1965 a 1967) e também da Federação Nacional dos Jornalistas (1968 a 1971). Bacharel em Direito pela Ufrgs, Lucídio é jornalista da época em que não era necessário o diploma. Mas deixou para a categoria sua maior conquista: a regulamentação profissional através de negociação com o Ministério do Trabalho. Atualmente, ele é conselheiro da Associação Riograndense de Imprensa, onde comparece uma vez por mês para as reuniões. "Mesmo depois de aposentado, continuo muito vinculado à categoria, contribuindo sempre que possível."


Acaso ou vocação?


Começou na profissão aos 17 anos, quando precisava trabalhar para dar continuidade aos estudos. "A não ser o curso de datilografia, que na época equivalia ao de digitador, não tinha o menor preparo para fazer um teste que me fosse oferecido na redação de um jornal. Mas a necessidade era maior e resolvi encarar a experiência", lembra Lucídio. O incentivo para trabalhar em jornal partiu do irmão Carlos Castelo Branco, conhecido jornalista político, que durante 30 anos foi colunista do Jornal do Brasil. Entre os oito irmãos, era com este que ele tinha mais afinidade. Mas tiveram muito pouco contato, pois Carlos, seis anos mais velho que Lucídio, saiu de casa muito jovem para trabalhar. Em 1945, Lucídio começou como auxiliar de reportagem, no Jornal Vanguarda, do Rio de Janeiro. Depois de passar os seis primeiros meses de trabalho recebendo apenas o dinheiro das passagens de bonde, finalmente foi promovido a auxiliar de repórter.


"Foi minha primeira conquista", conta Lucídio. Lá, ele passou por todas as funções até chegar a repórter político. Mesmo quando veio para o Rio Grande do Sul, em 1949, continuou como correspondente até 1950. "Houve também frustrações na minha caminhada. A primeira foi quando, já me considerando um repórter razoável, procurei meu secretário de Redação e solicitei aumento de salário. A resposta foi: "Castelo, você merece estar ganhando melhor, mas não se preocupe, pois vou conseguir um emprego na prefeitura para você". Que decepção! Foi aí que percebi que o jornalismo não era uma profissão, era apenas um "bico", uma escada para se conseguir um emprego de fato", analisa Lucídio.


Esse episódio foi muito marcante para o profissional que, algum tempo depois, ficou sabendo de um projeto de um deputado do Rio Grande do Norte, João Café Filho, que buscava regulamentar a profissão de jornalista. Ele interessou-se pelo assunto e passou a acompanhar a trajetória do projeto e seu autor. "E foi então que começou a segunda grande frustração da minha caminhada profissional. O tal projeto foi aprovado pela Câmara quando o deputado João Café Filho já era vice-presidente da República. Num dos impedimentos do presidente Getúlio Vargas, o vice Café Filho, pressionado pelos donos de grandes jornais, vetou o seu próprio projeto," conta Lucídio. "E assim minha profissão continuaria sendo apenas um "bico" até 1969."


"Sempre gostei muito do meu trabalho. Eu gostava do que fazia", assegura o jornalista, que em quatro anos foi promovido de auxiliar de repórter para repórter, passando a cobrir a Câmara dos Deputados, que ainda funcionava no Rio de Janeiro. "Foi então que tomei gosto pela cobertura de fatos políticos", recorda Lucídio.


Do Piauí a Porto Alegre


Em 1949, Lucídio veio para a capital gaúcha assumir o cargo de escrevente juramentado da Justiça Militar, emprego conquistado através de concurso público, e no qual ficou durante 10 anos. "Era 20 de junho. Debaixo de um céu cinzento e um frio terrível, desembarquei em Porto Alegre. Para quem nasceu no Piauí e fez um estágio de dez anos no Rio, logo vi que não seria fácil viver por aqui. A vontade de vencer, a garra e a coragem comuns aos iniciantes da minha profissão levaram-me à certeza de que somente com muito trabalho seria possível viver aqui", pensou na época. O jornalista conta que veio com planos de ficar apenas um ano, para quem sabe depois conseguir uma transferência. Quando chegou a Porto Alegre, encantou-se com a vida política. "Percebi que, para os gaúchos, política era coisa séria, assunto de gente grande", diz ele. A adaptação com a nova vida foi tão positiva que nunca mais foi embora.


"A história mais importante na minha vida profissional foi a chegada a Porto Alegre e a dificuldade para conseguir emprego na área", conta o profissional. Ao chegar na capital gaúcha, soube que aqui morava um jornalista piauiense, Abdias Silva, que, quando jovem, freqüentava sua casa em Teresina. O amigo trabalhava no Correio do Povo e, na esperança de que houvesse uma oportunidade de trabalho, o levou para uma conversa com o secretário de Redação, que disse: "Abdias, tu sabes que eu não tenho lugar para foca".  Lucídio tentou explicar que já não era um principiante e que tinha quase quatro anos de experiência, mas não adiantou.


Depois de passar a noite em claro, no dia seguinte voltou ao Correio do Povo para falar com o jornalista Arlindo Pasqualini, diretor da Folha da Tarde. "Àquele homem educado e atencioso tive a preocupação de dizer que não estava ali para pedir emprego, pois eu já era servidor público concursado. Disse que queria uma oportunidade para mostrar que sabia trabalhar e que me pagasse apenas pelos meus trabalhos que viessem a ser publicados pela Folha", propôs Lucídio.


A tentativa deu certo. "A partir desse dia, passei a trabalhar com a maior seriedade e diariamente entregava um texto, a maioria deles sobre assuntos políticos", conta o jornalista. Depois de um mês, Lucídio finalmente foi contratado. Assim, ele ingressou na Folha da Tarde em 1949, permanecendo no veículo até 1969.


O furo que valeu um emprego


Logo em seguida, Lucídio conquistaria o cargo de repórter político da Folha da Tarde graças à publicação de um furo nacional um dia antes de completar 22 anos. Na véspera do aniversário, ficou sabendo que o presidente do PSD e da Câmara dos Deputados, Nereu Ramos, viria ao Rio Grande do Sul, acompanhado de uma grande comitiva de políticos e jornalistas do Rio e São Paulo, para encontrar-se com Getúlio em seu exílio em São Borja. Ele estava vindo pedir apoio para sua candidatura à presidência. Com um pouco de ousadia, Lucídio propôs sua idéia ao diretor da Folha da Tarde: ir a São Borja e voltar a tempo de publicar a matéria na edição do dia. Lá foi ele de táxi aéreo, acompanhado do fotógrafo Santos Vidarte. "Eu levava comigo uma Olivetti portátil, grande novidade da época, que me foi emprestada por Abdias", lembra.


Chegando lá, depois de aguardar, por algum tempo, uma oportunidade para entrevistar Getúlio, Lucídio não teve alternativa a não ser um ato impensado. "Não tive dúvida. Com a coragem de um verdadeiro foca, parti em direção ao Getúlio e, insensatamente, interrompi a conversa do ex-presidente com o deputado Jango", conta Lucídio. O jornalista de fato conseguiu o tão esperado furo e fez a matéria durante a viagem de volta a Porto Alegre. "Foi um sofrimento, porque com o balanço do avião a Olivetti pulava no meu colo", diverte-se ele. "Para mim foi a glória, pois, no dia seguinte, data do meu aniversário, aquele furo valeu-me o emprego de repórter político da Folha da Tarde, onde trabalhei durante 20 anos."


Novos horizontes


Em 1959, foi chamado para assumir o cargo de Procurador Federal da Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (antigo Ipase), outro concurso público que havia prestado. A partir de 1961, em paralelo à função de repórter político da Folha da Tarde e ao cargo público, passou a atuar também como correspondente do Jornal do Brasil (JB) em Porto Alegre. Com o golpe militar, o noticiário político da Folha da Tarde tornou-se pobre em função da censura. Coincidiu que, em 1964, estava sendo instalada a primeira sucursal do JB na capital gaúcha. Decepcionado com a pouca liberdade de imprensa, Lucídio resolveu apostar em uma nova oportunidade que surgiu: assumiu o cargo de chefe da sucursal do JB, posição que ocupou até 1980, quando passou a ser diretor regional para os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O jornalista ainda ajudou a criar a Rádio Cidade FM (hoje do Grupo RBS), antes pertencente ao Jornal do Brasil. Em 1988, o JB fechou as sucursais, e Lucídio, já aposentado do cargo de Procurador, resolveu abrir uma empresa de assessoria chamada Castelo Branco Comunicação.


O novo projeto seguiu até 1991, quando foi convidado para ser coordenador de Publicidade do governo Alceu Collares. Lucídio só parou de trabalhar em 1993. Hoje, no sossego tão merecido de quem trabalhou quase 50 anos ininterruptamente, ele se dedica a aproveitar seu tempo da melhor maneira possível. Entre os seus hábitos cotidianos, está essencialmente ler jornais e livros. Também assiste ao noticiário pela televisão e gosta de escutar música popular brasileira. Sua rotina na capital gaúcha é de segunda até quinta-feira pela manhã. Na quinta à tarde, ele vai para a sua "grande paixão", um sítio em Gravataí. "Não adianta, eu tenho a alma rural", brinca. Lucídio é casado com Lina Maria Castelo Branco. Eles se conheceram aos 17 anos, namoraram durante cinco e casaram aos 22. Desde então, nunca mais se separaram. Juntos, eles têm três filhos: Lúcia, arquiteta; Gustavo, comerciante; e Edgar, advogado.


Revivendo as lembranças


"E assim estou sentado diante da minha Olivetti, pensando em reviver, pelo menos para mim, episódios que durante muitos anos vivi com grande intensidade e amor na profissão que abracei", diz Lucídio, na Introdução de seu livro. Mesmo com todos os avanços tecnológicos, o jornalista não abre mão da velha e boa companheira máquina de escrever. "Fiz questão de não aprender informática", salienta. Ele conta que escreveu o livro folheando uma antiga pasta recheada de fotografias de suas coberturas políticas em todas as épocas. João Goulart, Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Alceu Collares e Brizola são algumas das figuras que ilustram seu álbum de retratos para recordar. Lucídio considera Brizola um dos políticos brasileiros mais importantes, depois de Flores da Cunha.


"Uma profunda admiração pelos homens públicos do Rio Grande do Sul e pela seriedade com que desempenhavam suas funções e mandatos que lhes eram atribuídos pelo povo, aliada à hospitalidade que encontrei da parte dos colegas e amigos, foram certamente os motivos que me tornaram um gaúcho de coração e por opção", revela Lucídio. Testemunha ocular da História, ele conta que aqui cresceu profissionalmente, trabalhando com gosto com uma matéria-prima de qualidade: os homens públicos desta terra. "Aqui constituí uma bela família, que procurei educar transmitindo-lhes os exemplos e as qualidades do povo rio-grandense", considera.


Aos ainda jovens na profissão, ele deixa uma mensagem de otimismo: "Não existe segredo de sucesso. É necessário apenas fazer as coisas bem feitas, não ter preguiça e, principalmente, acreditar em si mesmo. Não existe nada que eu tenha desejado que eu não tenha conseguido."

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