Artigos | 16/04/2012

Comissão da Verdade não vai prender, torturar ou matar. Só ouvir

por Antonio de Oliveira * (antonioliveira44@gmail.com)

Antes do julgamento de quaisquer ações realizadas por quaisquer pessoas – até mesmo aquelas da luta armada e outras que tenham originado inclusive mortes de brasileiros, no período da ditadura militar –, não podemos esquecer que estas ações foram precedidas, provocadas, por um inominável golpe na calada da noite de primeiro de abril, que decepou sonhos de liberdade, de organização da sociedade, durante 21 anos. E que neste período nós, nossos filhos, vivemos no escuro, muitos, na acepção da palavra, sob as botas de torturadores militares e civis, que faziam isto com seus soldos sendo pagos por nós mesmos. Queremos a Comissão da Verdade para jogar luz neste período de escuridão. 


É sempre bom lembrar que vivíamos um momento político particularmente importante, com intensa participação da sociedade, e tínhamos um governo eleito democraticamente, quando se abateu sobre nós o golpe civil-militar de 1964. Lembro bem, pois estava na gloriosa 6ª Companhia de Polícia do Exército (PE), ali na Praça Argentina, e tinha como um dos comandantes de pelotão o valoroso então tenente Carlos Lamarca, que foi meu instrutor de tiro no curso de cabo.


Os "inocentes" que hoje defendem a Lei da Anistia e acham que está de bom tamanho esquecer de tudo e tocar a vida em frente, ou que o "outro lado" também tem que prestar contas, esquecem apenas este pequeno detalhe: o "outro lado", onde me incluo, estava feliz da vida, vivendo numa democracia, as pessoas questionando tudo, participando ativamente da vida política, comemorando um momento onde se previam  grandes transformações e liberdade e tudo isto lhes foi violentamente roubado numa virada de noite.


Foi neste clima de grandes esperanças que a sociedade recebeu um "cala-te boca" e amanheceu o dia sob a ameaça dos coturnos, das botas, e de não poder confiar mais em ninguém, pois seus vizinhos poderiam se transformar em alcaguetes do novo regime e você poderia ser preso só porque seu vizinho não gostava da sua cara, da sua alegria, da sua festa. Clima de terror. Terrorismo de Estado. Bastava um telefonema. Seguiram-se cassações e prisões de políticos, jornalistas, sindicalistas, trabalhadores, integrantes do Judiciário e do Executivo, professores, muitos professores. Eu vi desaparecerem da minha frente de um dia para outro os jornalistas Pilla Vares e Marco Aurélio Garcia, que eu acabara de conhecer na redação de Zero Hora. Saí correndo para avisar João Baptista Aveline, em casa, no Partenon, que ele seria preso e o encontrei com sua sacola já pronta esperando os policiais. Ele também já sabia.


Aqueles estudantes e trabalhadores que largaram tudo, suas famílias, namoradas, amigos, pegaram em armas e foram para os matos iniciar a revolução, o fizeram porque não viram outra saída. Todas as portas lhes foram fechadas no debate político no tempo em que qualquer agrupamento na rua recebia logo o aviso da dupla de policiais: - Vamos dispersar! Vamos andando! -. Eu mesmo conduzi Audálio Dantas para um debate clandestino com alunos da Engenharia da Ufrgs, na escuridão da noite, entrando por uma porta dos fundos, com as luzes dos corredores apagadas, para evitar que nossa reunião fosse descoberta e aí só Deus sabe o que poderia acontecer.


Aqui em Porto Alegre, por exemplo, eu gostaria de ouvir do cabo Nilton Aguaidas e do sargento Carlos Otto Bock, que cuidava da cantina da PE  e vendia excelentes sanduíches farroupilha (meus contemporâneos da PE), se foram eles mesmos que prenderam e levaram para a tortura e a morte o sargento Manoel Raimundo Soares, no Caso das Mãos Amarradas (é o que consta nos anais da CPI realizada pela Assembleia Legislativa do RS). Raimundo foi preso no dia 11 de março de 1966, às 17h35, em frente ao Auditório Araújo Viana, na Redenção, e seu corpo apareceu boiando no Guaíba no dia 24 de agosto, com os pés e mãos amarrados. Gostaria que eles confirmassem se outro nosso contemporâneo de PE, o cabo Milton, homem de confiança do comando do III Exército, entre outros, era mesmo torturador, como me disseram posteriormente. É que eu custo a crer que tudo seja verdade, que eles tenham praticado tanta crueldade.


Eu também quero saber se o jornal Folha de S. Paulo emprestou mesmo seus carros de transporte de jornal para servirem de "camburão" para o transporte de presos políticos pelas ruas da capital paulista, impedindo, assim, que a população desconfiasse desta movimentação de pessoas sequestradas pelo regime. Há jornalistas e presos políticos que denunciaram esta prática.


Vou complementar este texto com o final de uma crônica do Carlos Heitor Cony, onde ele diz, também, que "pessoalmente, gostaria de comprovar um episódio que até hoje não sei se é verdadeiro, mas revelador da repressão naquele tempo. Certa noite, um oficial da Aeronáutica e dois soldados saíram da Base Aérea do Galeão numa kombi para apanhar oito inimigos do regime. Todos na zona sul da cidade. Já quase madrugada, o oficial decidiu voltar ao Galeão com os oito subversivos que constavam na lista que recebera de seus superiores...".


"...Na altura da praça Mauá, ele resolveu contar os presos dentro da kombi e viu que só conseguira apanhar sete. Não podia se apresentar ao comando sem os oito detidos. Naquela hora e lugar, não havia ninguém nas ruas, mas ouviu o barulho de uma banca de jornais abrindo na esquina da rua São Bento para receber os primeiros exemplares. Encostou a kombi e mandou que o dono da banca, um italiano de 45 anos, recém-chegado ao Brasil, entrasse no carro. Pouco depois, entregava no Galeão os oito subversivos, que foram jogados no mar, perto de Itaipu. Carimbaram em cima da lista que lhe haviam dado: ‘Recebido’".


Eu queria que os neofascistas de hoje e os traidores da Nação e da Pátria de ontem e de hoje pelo menos ficassem quietos. Num silêncio respeitoso em memória dos que foram vítimas de suas torturas e mortes. Mas eles não precisam ter medo da Comissão da Verdade. A Comissão não vai prender, torturar nem matar  ninguém. Vai apenas ouvir. Restaurar um período da História que ficou escondido sob as botas que marcharam sobre as nossas cabeças. Eles têm que contar o que fizeram. Vai ver, isto será pior que tortura para eles.

* Antonio de Oliveira é jornalista.

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