Colunas | 23/04/2009

Um verdadeiro Buendía

Clô Barcellos

Uma viagem. Na véspera do aniversário do livro, o Centro Municipal lotou de juventude. Incrédulos, encontraram bebidas, belisquetes, um circo armado, cadeiras bem colocadas, uma tenda de tapetes persas, muitas almofadas fofinhas, coloridas, feitas pelas meninas do Morro da Cruz. Ninguém acreditava que a Maratona Literária iria se criar. Todos apostavam timidamente, quase negando, colocando a culpa naquele maluco do carioca que desabou em Porto Alegre há um par de anos. Mas estavam lá tendinhas de erva-mate, café e suco à vontade, e uma plateia descolada e feliz.  
 
Direto do paraíso tropical, onde toda a loucura é permitida, veio Weller. Enfunando com o vento as mentes preguiçosas dos gaúchos, tal as ovelhas em torno do pastor, prestimosas, fortes e cheias de vontade, lhes faltando apenas a proposição. Eis o que há de mais raro: a vez de aríete.
 
A cada tempo, durante a Maratona, Daniel Weller chamava um grupo, apresentando-os, se pessoas públicas, e elogiando sua participação. Estudantes de Letras pincelavam o ar com olhos brilhantes. O livro não está morto afinal. Não está fadado aos longos debates e ensaios, com apreciacões herméticas e teóricas, sobre um prazer que estava ali, na reunião e na noite que prometia ser longa. E os leitores iniciaram o cortejo das palavras. Cada um empoava-se à sua maneira, e a voz ecoava pelo hall, cheio de barulhos. Inacreditáveis arranjos musicais eram derramados leitura adentro a cada vez que abriam a porta da Sala Álvaro Moreira. O espetáculo de dança gratuito no Renascença completava a pajelança. A palavra era brindada por todas as artes. Era só dizer ao povo: vai que é tua, e a galera entrou com bola e tudo. 
 
No meio do salão, confortavelmente decorado com tapetes e almofadas, atrizes despetalavam fitinhas amarelas e corriam feito musas, enquanto a um canto, o livreiro aproveitava a excelente maré, e vendia García Márquez como não havia feito nos últimos anos. O povo lê e curte. 
 
Até alta noite, houve intervalos regados a músicas ao vivo, com direito a passos de dança. O congraçamento estava completo. Weller deve significar velas ao vento, velejar em grupo ou liderar uma manada de malucos beleza. 
 
Fu Lana não iria perder essa. Já na entrada, com a boca aberta, parecia estar em Madrid, de onde veio a ideia de fazer uma leitura virar um espetáculo. Amou a função. Nascera para aquilo.  Foi uma adolescente que acreditava nas confusões coletivas, com muita energia e produção mental. Leu, é claro, dando a sua melhor ênfase à parte em que a dupla de meninos Buendía tomou uma poção para colocar as lombrigas para fora. E lhe parecera tão natural. Regozijavam-se por apresentar os animais retirados de seus ventres, e, na verdade, poderiam assim enconder suas outras perturbações, estas verdadeiras e secretas, e tinham-se por curados.
 
Fu Lana não virou a noite. Apesar de maratonista de fé, acometeu-se de uma irrefreável mania de cotidiano e declinou. Dizia: isso não vai durar até o outro dia. Não pode. Não é possível. É viagem do Daniel.
 
Dormiu com um olho aberto. Toda hora remexia-se culpada por não estar lá. Sete horas da manhã – acompanhava a claridade desde as cinco –, como se desejasse tanto até que acontecesse, a mensagem veio pelo celular: sete estão lendo. Tu vens? Levantou-se de imediato e enquanto digitava “tô indo”, meteu-se em roupas nem escolhidas, deixou um bilhete para a família e espantou a cozinheira que completava a mesa do café. 
 
Escabelada, com olheiras, como se tivesse passado a noite em claro, dirigia e pensava: será possível que esses malucos vão conseguir? Chegou lá e apreciou o mesmo cenário de tapetes e fitinhas amarelas no chão, cartazes coloridos e um ar de fim de uma linda festa. Que não estava no fim. Disse: deixa comigo, pessoal, que estou inteira. Uma salva de palmas a recebeu e ela agarrou-se ao livro por algumas páginas. Depois de algumas rodadas, foram chegando mais pessoas, igualmente céticas, foram-se abrindo as portas e chegando os funcionários. O espaço voltava a ficar lotado.
 
E assim foi, continuando aquele verdadeiro aniversário do livro em 2009, na pequena Macondo, quer dizer, Porto Alegre. Onde o gelo poderia servir para construir as casas e onde até mesmo seria inventado o sorvete com a inserção de suco de frutas. Onde também há moças castas e de beleza estonteante e homens de fibra como os Buendía. 
 
Fu Lana agora acredita nos estrangeiros, mesmo que sejam cariocas.



 

Clô Barcellos

libretos@terra.com.br

 

José Guaraci Fraga - Porto Alegre/RS/Brasil. 26/01/2010

- "Parte da beleza da arte - maiores ou menores momentos nas telas, nas páginas, nas partituras - é que ela brota dos criadores apesar deles mesmos. Ao realçar os entrechoques de egocentrismos e antagonismos, a reportagem consegue valorizar mais ainda esse inestimável e incomparável patrimônio de uma época única. Este livro é uma proeza editorial: o Peter Biskind fez um baú onde todo cinéfilo reaviva facilmente a antiga memória e cria uma nova. Admirável também é Fu Lana, espectadora sensível como poucas. "


Paulo Moreira - Porto Alegre/RS/Brasil. 22/01/2010

A inocência se foi!! - "Clô, tenho este livro há uns 10 anos. Li em inglês e fiquei pasmo com este tipo de revelação que o Peter Biskind fez. Agora que foi traduzido, li de novo e fiquei mais de cara ainda. Todos aqueles ídolos que aprendemos a amar e admirar são pessoas de carne e osso. São mesquinhos, sacanas, aproveitadores, traidores, etc e tal. Na verdade, o problema é nosso, pois nos deixamos levar pelo glamour hollywoodiano e deixamos de ver que estes atores, diretores, produtores também são seres humanos. É um ótimo livro. De terror.... Beijos do Paulo Moreira. "


Renata Rubim - Porto Alegre/RS/Brasil. 19/11/2009

Ótima recordação - "Que bom se a Porto&Vírgula retomar! Muita gente sente falta !"


Edgar Carlotto - Porto Alegre/RS/Brasil. 15/11/2009

Dulcinéia - "Gostei muito do texto, desculpe pela demora correria da feira . Da uma passadinha lá novamente hehe. Saudações"


Adriano Marcello Santos - Porto Alegre/RS/Brasil. 16/10/2009

Machuca - "Tudo ia bem, mas "La n(i)egra" machucou a inteligência! Menos é mais..."


Márcia Fernanda Peçanha Martins - Porto Alegre/RS/Brasil. 18/06/2009

Indenização já - "Confesso minha decepção com a categoria, que parece nem um pouco preocupada com a decisão, apesar dos esforços feitos pelo Sindicato para alertar, antes do julgamento pelo STF, sobre os perigos para a sociedade que o fim do diploma poderia acarretar. Mas, esperar o quê de uma categoria que evita comparecer às assembléias de dissídio para discutir salário. Por isso, para atenuar a tristeza, vou aceitar a sugestão do filme. Quanto à Fu-Lana, tem meu amplo apoio. bjs "



Colunas


rss RSS
ADVB ARI
Todos os direitos reservados © 1998.2009 - Coletiva.net.
A reprodução não autorizada é crime, fale conosco e evite constrangimentos.

Desenvolvido por dzestudio