Colunas | 11/03/2011

Ecos do eco

Fraga

Quem grita diante de um vale e vibra com o eco não imagina o que foi aperfeiçoar esse fenômeno acústico, milênios de incompatibilidade acústica entre a linguagem e a topografia. A garganta humana e as gargantas geográficas não falavam a mesma língua.

Tudo começa com os trovões, que ribombavam nos céus e de alguma maneira ressoavam na terra, para pavor dos ancestrais.

Assim que passava o temporal, a tribo saía da caverna e bradava contra os raios. Urravam daqui de baixo mas o céu não reverberava. Precisavam de um amplificador.

Durante séculos, descobriram lugares onde barrancos devolviam alguns sons. Mas a ressonância era, por assim dizer, primitiva: se berravam Aukts!, ouviam Strachtz! As tribos reuniam os sons mais audíveis e faziam exercícios. E a cada vez que um local se mostrava retumbante, corriam pra ensaiar a gritaria.

Havia dois problemas com os ecos: falta de nitidez e falta de sincronismo. O primeiro significava ouvir sons diferentes dos que proferiam; o segundo, ter que ouvir fora da ordem da pronúncia. E o tempo e os trovões passando.

Assim que a humanidade se espalhou com seus idiomas por todos os terrenos acidentados do planeta, as pesquisas dos ecos e o intercâmbio entre os pesquisadores avançaram. Alguns grupos descobriram que palavras davam os melhores resultados; outros, que tipos de aclives ofereciam sonoridade semelhante aos berros dados.

À medida que o domínio dos ecos aumentava, eram distribuídas instruções pra se conseguir o efeito junto a colinas e montanhas. Agora, já havia geógrafos e gramáticos fazendo testes, trocando conhecimento, agrimensores e linguistas ajustando teorias para se obter ecos mais precisos.

Na busca das respostas, tiveram que mover céus e terras: cavar e alterar áreas, uma espécie de afinação de terreno. Ao mesmo tempo, as pessoas foram treinadas por gritadores profissionais, que articulavam cientificamente. Aos vales de eco só restava corresponder ao que era dito.

E foi assim, de tanto se adestrarem um ao outro, que o solo e as vozes foram se condicionando, até ser possível qualquer um dizer qualquer vocábulo – em qualquer língua! – e qualquer vale de eco reproduzir fielmente qualquer som, sintaxe e dicção perfeitas. De xingões a poesia, tudo passou a ecoar.

Hoje você chega a um belvedere, escancara os pulmões e pode reagir a antigos desafios das nuvens. Mas em dias tempestuosos, tudo volta ao passado: todo eco será abafado.

(Texto publicado no jornal Extra Classe em nov/2010)

Acabou o desfile mas
a dispersão continua.

BUGIGANGAS CARNAVALESCAS

Carnaval carioca: a mais duradoura e espetacular
sequência de déjà vu do mundo.

O Brasil passa o ano todo com escassez de apoteose
e aí, no Carnaval, tem excesso dela.

Calma, foliões:
depois do Carnaval o tédio volta ao normal.

Ia passando, vi a luz acesa, pensei que era Carnaval.
Mas era só a Sapucaí.

O calendário podia fundir duas datas,
Carnaval e Finados: o primeiro tá cada vez mais
melancólico; o segundo, cada vez mais animado.

Clichês atualizados: "Mije com moderação."

Tinha uma memória espetacular:
não lembrava nada além de espetáculos.

A previsão é de péssimos meteorologistas para
as próximas previsões.

BUGIGANGAS ATUAIS

A previsão é de péssimos meteorologistas
para as próximas previsões.

Todo mundo defende as árvores.
Mas ser enterrado ou cremado
em caixão de plástico ninguém quer.

Se rir pagasse imposto,
a receita federal não seria tão sisuda.

Diz-me com quem andas e
te direi se és um alpinista social.

Por que homens deixam toalhas molhadas pelo quarto?
Porque só pensam na vara, nunca no varal.

Dia Internacional da Mulher.
Não sei porque os outros grandes times também
não criam datas alusivas às suas torcedoras.

A solidariedade
mundial é um outro
tsunami - de saliva.



 

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