Colunas | 17/03/2011

Desembarcando...

André Arnt

Desembarco no Kennedy, pensando em duas coisas. Pegar um táxi para o hotel e em de onde eu tirei a ideia de fazer a barba com o sabonete do avião.

Entro no táxi do Ram, um Toyota Camry perfeitamente climatizado. Se havia alguma dúvida se saíra de Porto Alegre, ela estava dirimida.

Ligo para meu pai no Brasil. Ele, que sabe o preço de uma ligação internacional, vai logo dizendo: “saímos na frente, gol do Bolatti, mas o Celso retrancou o time e sofremos o empate no fim”. É a estreia do Colorado na Libertadores, contra o Emelec, no Equador. Informo que está tudo bem e desligo.

Ram olha para mim com estranheza, mas de forma simpática. Quer saber que língua eu havia falado.

Ao descobrir que sou do Brasil, ele, que apesar de catorze anos em Nova York, apresenta alguma dificuldade com o inglês, diz que adora geografia e história e começa a tecer comentários sobre o relevo da América do Sul e da Ásia.

Às vezes parece estar me sabatinando. Penso na Professora Ilse lá do Farroupilha e me concentro. Acho que não fui muito mal. O olhar de Ram é de certa aprovação.

“Do you know, Mr.?” Ele me dá tratamento senhorial, mesmo sendo mais velho. “O Brasil e o Nepal tem duas coisas em comum...” comenta para aguçar a minha curiosidade. Penso na letra “ele” final, mas será que Nepal, em nepalês, termina com “ele”?

“Nós temos a segunda reserva de água do mundo, vocês a primeira” diz ele e, para continuar rindo, afirma “o Nepal tem o grande líder espiritual do planeta, o Brasil tem o líder dos esportes, admiro muito Pelé”. Penso comigo em como seria bom gravar e apresentar àqueles alunos argentinos e maradonistas. Por um momento tenho orgulho de ser brasileiro.

Estamos no Queens, passando na frente do Jamaica. Comento com ele que Francis Ford Coppola viveu ali na infância. Ele dá de ombros... Parece que nunca ouviu falar do pai do Godfather.

Ao entrar em Manhattan vem à baila a crise do Egito e dos demais países árabes. Vem ele exibir-se com informações sobre o Brasil. Diz que o presidente do Brasil era amigo do Gadaffi e de vários outros ditadores.

Fico meio atônito. Isto é coisa que se diga a um brasileiro que acaba de chegar à Nova York?

Considerei a alternativa de informá-lo que Lula não se declarara somente amigo do facínora líbio, dissera que era irmão também; mas que, por outro lado, era mais provável a Kate Winslet ligar para mim, convidando para jantar no Plaza naquela noite, do que eu votar no molusco em qualquer tipo de eleição ou circunstância.

Por instantes, silenciei, mas alguma coisa precisava ser dita ao meu novo amigo.

Decidi pedir desculpas, e dizer que, embora a nova presidenta fosse do mesmo grupo político, com ela no poder, estas asneiras diminuiriam. Nós brasileiros acreditamos em cada coisa...

Ele riu e comentou algo sobre a qualidade da varredura de vassouras novas...

Já era hora de desembarcar.

Ainda bem.



 

André Arnt

andre@coletivaeac.com.br

André Arnt, diretor da Coletiva EAC, é administrador de empresas, consultor e professor universitário. Coordenou cursos de pós-graduação nas áreas de negócios e marketing. Atua como consultor em estratégia empresarial. É colaborador da Coletiva.net.

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