Colunas | 23/01/2012

Que merda é essa?!

Mario de Almeida

Inspirado no bloco pernambucano “Que Merda é Essa?!”, o bloco carnavalesco homônimo carioca nasceu em Ipanema, em 1995, e faz parte de um grupo que, em diversas cidades e estados brasileiros, saem às ruas, no Carnaval, cantando temas ligados à crítica social.

“Aproveitando o ensejo”, como se expressaria o Conselheiro Acácio, da proximidade do Carnaval e face ao conteúdo metafórico do que vem abaixo, resolvi tomar emprestada essa expressão interrogativo-exclamativa para titular esta coluna de hoje.

Exercido o legítimo direito de um colunista em usar o vetusto “nariz de cera” para abrir sua matéria - como gostava o meu avô -, vamos ao assunto inerente.

Trabalho há mais de 60 anos e nunca fui chamado de ranzinza. Nem de neurastênico ou implicante. Entre muitos apelidos que ganhei, dois até me agradam: “fanático da objetividade” e “tudo pronto?”.

Certa noite, o amigo e novelista Manoel Carlos telefonou-me e perguntou: - Estou atrapalhando o Jornal Nacional? - Face à minha afirmativa que não assisto a telejornais, perguntou-me o motivo:

- Leio jornais, pois nos telejornais você é obrigado a assistir ao que eles editam e sem interesse para você. Nos jornais, você só lê o que lhe interessa. No jornal, entre a massa de assuntos publicados, você “edita” o que lhe interessa ler. Nos jornais, o editor é você mesmo, além de que os telejornais diminuem-me o prazer da leitura dos jornais.

Esse imenso “nariz de cera”, permitido aos cronistas e colunistas, foi abolido pelo “lead” no jornalismo moderno, ou seja, o  início de uma notícia deve responder à síntese das perguntas básicas - "O quê?", "Quem?", "Quando?", "Onde?", "Como?", e "Por quê?". Estabelecido no “lead” o teor da matéria, fica para o leitor a opção de saber mais ou não. Objetividade máxima.

A matéria sobre uma entrevista coletiva da presidente do Flamengo, em O Globo de 17.01, tem o seguinte “lead”:

“A presidente do Flamengo trocou a roupa vermelho e preta pela rosa, mas não conseguiu clarear o horizonte de uma crise sem fim”.

Em uma única frase a repórter se revelou colunista de moda e, profetiza de “uma crise sem fim”, decretou que o Flamengo  vai acabar.

Dia seguinte, no mesmo O Globo, “um lead” informava (informava?):

“O ciclo está fechado. Como há 100 anos, o último Fla-Flu do momento terminou da mesma forma que o primeiro: com vitória para o tricolor. No ano do centenário do clássico, Flamengo e Fluminense estão mais do que nunca em lados opostos”.

Acontece que para dar cobertura à veia das e dos “belas letristas”, manchetes e subtítulos adiantam um mínimo do que vem abaixo, numa mistura subjetiva de informações, onde a ida do jogador Thiago Neves para o Flu repete um resultado de há 100 anos e fora do campo. Ranzinza, eu?

Na mesma data, e no mesmo Caderno de Esportes, o “lead” sobre os 70 anos do boxeador Muhammad Ali chega à apoteose mental da literatice, um verdadeiro orgasmo jornalístico em nível de Ponto G: “Muhammad Ali nocauteava com as palavras e fazia poesia com as luvas”.

Fosse ainda vivo nos anos de glória de Ali, Fernando Pessoa, travestido de Álvaro de Campos, jamais escreveria “Nunca conheci quem tivesse levado porrada”, pois poderia ter testemunhado dezenas de pugilistas que, ao levar porradas das poéticas luvas do ex-Cassius Clay, beijaram a lona em demonstrações de puro amor...

Ao citar esses três exemplos, alguém pode inferir que o ranzinza está de assinatura com O Globo, o que só é verdade com a minha condição de assinante do jornal.

Acontece que percebo há tempos, em outros veículos, essa tentação de fantasiar notícias com um pseudo “nariz de cera” com pretensões literárias. Só com essa última porrada resolvi declarar que estou de saco cheio.

E é até possível que essa “tentação” metafórica ou comparativa tenha paternidade nos textos de anúncios, com a diferença que as alusões aos produtos e serviços anunciados estão à disposição – como opção – do leitor potencial. No caso de jornal, quem paga para ler notícias quer notícias e não brincadeiras linguísticas como nocautear com palavras ou usar luvas de pura poesia para dar porradas.

Poupem-me, por favor, de roupa rosa em notícias de futebol. Um drible a mais tem, no mínimo, que culminar em gol.

Inté.

Vitrine (comentários sobre a coluna anterior)

Jovem Mario, em 1912 nasceu meu pai ... tenho viva memória dele. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.

Mário, viva! Um beijo da Divina vale um capítulo inteiro de uma vida de epopeias, aliás, de estreias, acompanhado ou não de Lindoneias. Qualquer dia destes vou reunir seus textos antológicos e cuidar da edição de um novo livro. Abração, Léo (Christiano), editor/empresário, Rio.



 

Mario de Almeida

maryoalmeyda@gmail.com

Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de "Antonio's, caleidoscópio de um bar" (Ed. Record), "O Comércio no Brasil – Iluminando a Memória" (Confederação Nacional do Comércio), "Confederação Nacional do Comércio - 60 Anos" (CNC); co-autor, com Rafael Guimaraens, de "Trem de Volta - Teatro de Equipe" (Libretos); um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis) e do “Almanaque do Camaleão” (Léo Christiano Editorial). Reside no Rio e há anos é diretor-editor de AciBarra em revista.

Emanuel Mattos - Porto Alegre/RS/Brasil. 24/01/2012

- "Belíssimo - e absolutamente oportuno - o artigo, grande mestre. "



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