Colunas | 05/03/2012

Comes & bebes

Mario de Almeida

Alguém sabe onde fica o melhor botequim, bistrô, pub ou taverna de nossas vidas?

(J. A. Moraes de Oliveira)

Sob o título de “Refúgios”, o Moraes acima, Killer na juventude, brindou-nos aqui em Coletiva com uma saborosa crônica sobre espaços onde se celebra a vida.

No e-mail que ele enviou à patota amiga, fez a instigante pergunta que provoca a gente na epígrafe acima e sacode lembranças, aquelas que a gente sabe que serão as eternas cúmplices de uma existência.

Eu, para ser sincero, não pude frequentar aquela que seria a minha resposta ao Killer, pois se eu já existisse, certamente teria acompanhado a migração de Bilac e patota da Confeitaria Pascoal para a Confeitaria Colombo. O poeta e escritor Paulo Mendes Campos também se lastimava de não haver convivido com gente como Chiquinha Gonçalves, Aloísio e Artur Azevedo, Coelho Neto, Emílio de Menezes, João do Rio, Joaquim Nabuco, Martins Fontes, Paula Ney e toda a intelectualidade das primeiras décadas do século XX.

Paulo Mendes Campos e eu, se não confraternizamos com a hoje já centenária Colombo na época em que se trocavam brindes com absinto ou vinho, tivemos a graça de haver comungado uísque e champanhe com os nomes mais expressivos do Rio nos últimos anos de 1969 até os anos 1990, no pequeno bar e restaurante Antonio’s, um pequeno enclave artístico e cultural do Rio de Janeiro, cuja memória foi preservada – espero eu – num livro de minha autoria.

O Antonio’s serviu e foi servido pela presença de gente como Leila Diniz, Maria Cláudia, Tônia Carrero, Antonio Callado, Antonio Torres, Boni, Borjalo, Chico Buarque, Chico Caruso, Cyro Monteiro, Di Cavalcanti, Fernando Sabino, Gláucio Rodrigues, Irineu Garcia, Jô Soares, Joaquim Pedro de Andrade, José Carlos Oliveira, Lúcio Rangel, Mauro Salles, Nelson Motta, Otto Lara Resende, Ricardo Amaral, Paulo Francis, Rubem Braga, Ruy Guerra, Sebastião Nery, Sérgio Cabral pai, Simonal, Tarso de Castro, Tom Jobim, Toquinho, Vinicius de Moraes, Walter Clark, Ziraldo, Zózimo Barroso do Amaral e, às vezes, por Adolfo Bloch, Juscelino e família.

Ganhei convívio, amizades e, até, um desenho de Di Cavalcanti e uma declaração de amor – escrita na capa do disco Urubu – do Tom Jobim. O Antonio’s inseriu este Almeidinha, conforme me chamava o poetinha, num ambiente de inteligência e acho que me tornou, até, um pouquinho menos burro.

Se o Antonio’s foi o “ponto” na maturidade, o Harmonia, em São Paulo, na Rua Xavier de Toledo, foi o primeiro bar alemão que conheci, ainda na mocidade, uns 10 anos antes de levantar copos no Hubertus, o pioneiro dos alemães que frequentei em Porto Alegre, entre muitos e muitos outros. No Harmonia, um velhinho tocava piano e um outro violino. Quando a nossa turma entrava, eles atacavam com Lili Marlene, a linda canção alemã da guerra de 1914. Dependendo do ânimo geral, a gente, em coro, soltava a voz. Na noite de seu fechamento, fomos convidados, como habitués, a participar, com portas fechadas, de uma gloriosa boca livre.

Em São Paulo, na mesma época, e frequentado pela mesma turma, o outro “ponto” era o bar do Terminus, na Avenida Ipiranga, quase esquina com São João, e cujo diferenciador era o absinto, de há muito proibido, o qual, servido com suco de laranja, chamava-se Zumbi. Havia um mezanino onde nossa turma se alojava, e o térreo recebia, no fim do dia, uma turma de “idosos” com mais de quarenta anos, que iniciava os trabalhos com o bordão: “Obrigado, que para beber nós temos”. Lá de cima a gente concluía: “Amém!”

Falta agradecer, como não gaúcho, a surpresa agradável de ser apresentado nos bares alemães de Portinho, ao sanduíche aberto, cujos ingredientes, além do pão de forma, eram os mais variados possíveis. No rigor do inverno, a gente dava o pontapé inicial com um steinegger, um chope escuro e um sanduíche aberto besuntado por uma mostarda artesanal muito apimentada. A partir daí, entre as lágrimas ocasionadas pela mostarda e com chopes claros, curtia-se um calorzinho gostoso.

Ainda em Porto Alegre, impossível não citar o Treviso, restaurante que atravessava a noite e que ostentava uma cadeira pregada na parede: “Aqui sentou Francisco Alves”. O Treviso foi o único bar ou restaurante que conheci que, quando havia baile de gala do society, recebia, na madrugada, as putas e as damas da sociedade local. Putas à esquerda com seus respectivos cafetões e damas com seus pares à direita. E viva a democracia, mesmo em tempos de ditadura!

Na verdade, o único botequim-botequim que frequentei em toda a vida, com certa assiduidade, também em Porto Alegre, foi o Éden, na Rua da Praia, entre a Praça da Alfândega e a Rua Caldas Júnior, defronte à então Imprensa Oficial, hoje o Museu Hipólito da Costa. O Éden tinha como atrativo principal o fato de tu jamais ser convidado a retirar-se, pois ele não fechava. E nem podia. Não tinha portas.

Inté.

 

Vitrine (comentários enviados sobre a coluna anterior)

Mário, passam quase despercebidas estas formas de comunicação em nossos ciclos de vida... “morou?”, assim já dizia o Roberto Carlos. Abraços. Aderbal Moura, executivo mercado de capitais, Rio.

Deliciosa sua coluna. Como vai? Espero que você responda: "Tô di boa." Fico sempre filosofando a respeito dessas três palavras, e acabo caindo em uma boa gargalhada. Abraços. Denise Demange, São Paulo.

Adorei sua resposta para "de onde???". Kkk. Beijokas. Claudia Almeida, Rio.

Adorei a coluna, paps. Das últimas vezes que tentei falar com você, estava descansando. Domingo estarei aí pra tirar o seu descanso. Beijos, filhota. Carla Almeida, jornalista, Rio



 

Mario de Almeida

maryoalmeyda@gmail.com

Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de "Antonio's, caleidoscópio de um bar" (Ed. Record), "O Comércio no Brasil – Iluminando a Memória" (Confederação Nacional do Comércio), "Confederação Nacional do Comércio - 60 Anos" (CNC); co-autor, com Rafael Guimaraens, de "Trem de Volta - Teatro de Equipe" (Libretos); um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis) e do “Almanaque do Camaleão” (Léo Christiano Editorial). Reside no Rio e há anos é diretor-editor de AciBarra em revista.

Carlos E. F. Cunha - Santo Amaro da Imperatria/SC/Brasil. 06/03/2012

Comes & Bebes - "Que história bem contada, Mestre Mario. Ao ler o que você escreve me trasporto no tempo, quase como se estivesse lá. Dá até para ouvir os brindes. Um dom raro esse seu de encantar o leitor com um texto leve, bem humorado e inteligente. Um quebra-costelas. Carlos"


David Hulak - Olinda/PE/Brasil. 05/03/2012

Botecos - "Há muitos botecos na vida de um entrado em anos. A Bodega de Véio, na minha Olinda, o Campino, no nosso Rio, mas, sobretudo o Treviso, ali no Mercado, virando noites depois de fecharem a UH. O Teatro de Equipe, as memórias gustativa, auditiva e “quepenativa” voltam agora e sempre quando leio as suas colunas. "



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