Colunas | 12/03/2012

No vaivém da vida

Mario de Almeida

Há pouco, uma formiga perambulava em torno de minha sandália, no piso da piscina, a qual, por puro instinto, esmaguei com o pé e evitei que ela caísse na tentação de escalar a sandália e picar-me.

Esse formicídio acabou levando-me para lembranças bem remotas quando, bem garoto, acompanhava o vaivém das formigas e tentava descobrir os significados daquelas vidas que, como nós, são organizadas em comunidades e que cumprem, com resignação, os rituais de suas existências.

Pensamentos se aceleram e acontecem por conta própria.

Eis-me lembrando de, quando ainda jovem, fui um rapaz que perambulava em torno de uma indagação fixa: qual o sentido da existência e o que fazer dela?

Felizmente, antes que a ausência de uma resposta satisfatória fosse o motivo para eliminar todas as perguntas, saí de angústias profundas através de uma tendência minha que se desenvolveu através dos tempos e que terminou, até, em apelido: “Fanático da Objetividade”.

Não sou religioso e, pois, nunca tentei entender ou engolir o “mistério” da Santíssima Trindade, mas uma parábola cristã me levou ao encontro da minha resposta, ou melhor, da não resposta.

O grande teólogo e doutor da Igreja Santo Agostinho fez do entendimento do mistério da Santíssima Trindade sua obsessão constante. Um dia, ao caminhar pela praia foi protagonista de outro mistério, quando prestou atenção numa criança brincando na areia. Com um copo na mão ela corria para o mar, enchia o copo e, num buraco na areia despejava a água, em ações repetidas. Santo Agostinho, curioso, perguntou à criança o seu objetivo e ouviu como resposta que ela pretendia encher o buraco com toda a água do mar. Creio que mesmo quem não conhece a parábola já supõe seu desfecho. Santo Agostinho explicou ser impossível a tarefa e ouviu: “É muito mais fácil o oceano todo ser transferido para este buraco do que compreender-se o mistério da Santíssima Trindade”. E a criança desapareceu... 

Não precisei de uma criança para perceber o óbvio: se até minha chegada ao mundo ninguém conseguira provar o sentido de sua existência, a existência em si mesma é a tarefa.

Quando Sartre esclareceu que “o homem é a sua ação”, induzia a gente a colocar a mão na massa e agir.

A partir daí não parei mais, errando e consertando erros, agi.

Através da minha trajetória, percebi que, quando menino, aprendi a lição do “fazer” com as formigas e, enquanto não sou pisado, faço.

Inté.

 

Em tempo: escrevo em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, e lamento que entupam o calendário com datas absurdas como essa.

Deve ser coisa de homem não muito favorecido pela inteligência, pois não se pode atribuir um único dia à mulher, cuja convivência e saber iluminam a nós, homens, os 365 dias do ano e também no dia 29 de fevereiro em ano bissexto. Senhoras e senhoritas, desculpem-nos, nós não sabemos o que fazemos, mas, de acordo com pesquisas ainda quentes, em mais de 100 países, a brasileira é a mulher mais feliz das entrevistadas.

Por favor, dediquem um quinhão dessa felicidade aos seus afortunados parceiros.

Amém.

 

Vitrine (comentários dos leitores sobre a última coluna – Comes & Bebes)

Oi amigo: sua coluna me fez ver voltar à infância... Meu amado avô era frequentador da Colombo e sempre nos levava nos nossos aniversários. Acredita que sinto o cheirinho de lá sempre que me lembro desses dias?... Beijos. Claudia Almeida, Rio

 

Jovem Mario, aí vai uma lembrança do bar Savoy ...... que frequentei quando já estava vazio... Obrigado por estes estímulos memoriais. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife

 

Chopp

Na avenida Guararapes,

o Recife vai marchando.

O bairro de Santo Antonio,

tanto se foi transformando

que, agora, às cinco da tarde,

mais se assemelha a um festim,

nas mesas do Bar Savoy,

o refrão tem sido assim:

São trinta copos de chopp,

são trinta homens sentados,

trezentos desejos presos,

trinta mil sonhos frustrados.

Ah, mas se a gente pudesse

fazer o que tem vontade:

espiar o banho de uma,

a outra amar pela metade

e daquela que é mais linda

quebrar a rija vaidade.

Mas como a gente não pode

fazer o que tem vontade,

o jeito é mudar a vida

num diabólico festim.

Por isso no Bar Savoy,

o refrão é sempre assim:

São trinta copos de chopp,

são trinta homens sentados,

trezentos desejos presos,

trinta mil sonhos frustrados

Carlos Pena Filho (1929-1960)

 

Observação: Apesar da morte prematura, Carlos Pena Filho foi um dos mais celebrados poetas pernambucanos. (M.A.)

 

(Comentários ao pé da coluna)

Carlos E. F. Cunha - Santo Amaro da Imperatriz/SC/Brasil. 06/03/2012:

Comes & Bebes - "Que história bem contada, Mestre Mario. Ao ler o que você escreve me transporto no tempo, quase como se estivesse lá. Dá até para ouvir os brindes. Um dom raro esse seu de encantar o leitor com um texto leve, bem-humorado e inteligente. Um quebra-costelas. Carlos"


 

David Hulak - Olinda/PE/Brasil. 05/03/2012: Botecos - "Há muitos botecos na vida de um entrado em anos. A Bodega de Véio, na minha Olinda, o Campino, no nosso Rio, mas, sobretudo o Treviso, ali no Mercado, virando noites depois de fecharem a UH. O Teatro de Equipe, as memórias gustativa, auditiva e ‘quepenativa’ voltam agora e sempre quando leio as suas colunas. "



 

Mario de Almeida

maryoalmeyda@gmail.com

Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de "Antonio's, caleidoscópio de um bar" (Ed. Record), "O Comércio no Brasil – Iluminando a Memória" (Confederação Nacional do Comércio), "Confederação Nacional do Comércio - 60 Anos" (CNC); co-autor, com Rafael Guimaraens, de "Trem de Volta - Teatro de Equipe" (Libretos); um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis) e do “Almanaque do Camaleão” (Léo Christiano Editorial). Reside no Rio e há anos é diretor-editor de AciBarra em revista.

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