Colunas | 14/03/2012

A primeira folha de outono

Márcia Martins

O relógio de parede de fundo verde pendurado no azulejo bege da cozinha indicava o momento exato da minha descoberta. Não necessariamente o instante em que ocorreu. Os ponteiros marcavam 19h de uma terça-feira em Porto Alegre, que começava a tingir-se de noite após uma ameaça não bem concretizada de chuvas e trovoadas. Depois de chegar de um dia de trabalho, na mesma hora em que minha pimpolha Gabriela retornava de sua aula na faculdade (ai, que nojo, agora ela é universitária) e começarmos nossa conversa dividindo o mesmo elevador, fui correndo até a cozinha para fechar as basculantes, ver se o cão Dalai tinha comida e coisa e tal.

No chão, caída, sem a mínima importância, já pálida de tanto esperar conforto ou algo que lhe juntasse, jazia a primeira folha de outono. Ali, desprezada. Rejeitada. Deixada de lado. No aguardo de que outras folhas amigas ou parentes fossem lhe fazer companhia. Quem sabe até vizinhas da mesma árvore, habitantes da mesma rua, moradoras do mesmo bairro. Não queria aquele fim solitário. Nem merecia. Afinal, a estação do outono ainda nem começara.

E este meu encontro sorrateiro com o primeiro sinal, ainda que tímido, do outono, que começa oficialmente somente no dia 20 de março, às 02h14min, serviu para me lembrar que em breve, muito em breve, a cidade veste-se de tons mais pastéis e sóbrios. Aquela pequena folha outonal caída no chão da minha cozinha me alertou que, a partir do dia 20 de março, pelo calendário das estações, as noites já estarão mais frias e ventosas, os dias serão embalados pela incerteza no que vestir e o passeio na Redenção no domingo pela manhã torna-se, novamente, um evento convidativo. E para me avisar que Porto Alegre irá se perfumar com o cheiro do outono. E tudo ficará menos pesado com o fim do calor.

O outono propicia o encontro nos finais de semana com os amigos para partilhar uma taça de vinho tinto, um cinema no shopping com aquela amiga de longa data seguido de um café especial, o enrolar na cama nas manhãs de sábado quando não se tem plantão para aproveitar mais uma hora de sono e tantas outras coisas. Só no outono é bonito ver os pingos de chuva rolarem pelas janelas e cancelar, em função disso, algum compromisso ao ar livre. Só no outono, o coração já amargurado até pensa em aceitar um novo hóspede e quem sabe alimentar uma nova paixão.

Por isso, uma simples folha repousando no chão da minha cozinha gerou tantas expectativas. Por isso, uma folha à espera de uma estação mais amiga, que não lhe expulse da sua árvore, de seu habitat, despertou este misto de melancolia e acolhimento que chega com o outono. E, talvez, por isso, a folha ali, jogada na cozinha, perto do prato onde fica a comida do Dalai, embalada de vez em quando por um sopro de vento, tenha também despertado a curiosidade do cão, que só se afastou do local quando coloquei a mesma no lixo.



 

Márcia Martins

marfermartins@gmail.com

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela PUC. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou carreira profissional, na Zero Hora, no Correio do Povo, em assessorias de comunicação social empresariais e públicas, e atualmente trabalha no Governo do Estado. É poeta, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS. E tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com.

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