Colunas | 19/03/2012

As bundas e a realidade

Ernani Ssó

Vejo muitas reclamações contra o uso do photoshop pelas revistas de mulheres peladas. A troco? Essas revistas não estão nem aí pra realidade, nunca estiveram, sempre lidaram com fantasias, ou você já viu na tua vidinha mulher nua, de salto alto, deslizando pelo corrimão da escada? Viu? Minha nossa, interne a moça, rápido!

Depois, os “leitores” dessas revistas não as usam como ilustração ou inspiração para enredos dos mais esquemáticos criados por eles mesmos? O cara num entrevero frenético com as próprias mãos vai se preocupar porque alisaram a celulite da atrizinha? Sabe o que isso me lembra? Dois contos, já que literatura é meu grande vício, depois de três refeições diárias. Um, do Rubem Fonseca, que se chama “A matéria do sonho”, é sobre um rapaz com uma mulher de inflar. O outro, do Dalton Trevisan, chamado “A barata leprosa”, tem a dita barata exclamando: “Ah, se eu tivesse uma dessas mulheres de plástico. Como eu a faria feliz!”.

Monica Belucci disse que o segredo da sua beleza eterna se chama photoshop. Sim, estava sendo irônica, mas muitas mulheres levam a tecnologia a sério. Afinal, é mais eficaz que qualquer maquiagem. A única coisa que me preocupa são as poses ridículas a que elas se submetem. Ridículas em termos. Às vezes são patéticas — tristes de tão patéticas. Mas sou eu que vou dizer pra elas desprezarem grana fácil e ganhar salário mínimo? Não se trata de cinismo meu. Apenas sinto a ilusão relativa do ar muito baixa.

Nossa memória é um photoshop fantástico, ou você jura que não retoca e não colore a própria biografia? A mulher gostosa com quem tivemos um encontro casual e feliz é como o peixe na história do pescador: muito, mas muito mais gostosa, e muito, mas muito mais feliz. Mesmo no presente não estamos livres da ação incansável do photoshop: a cerveja ou o vinho, o cenário romântico ou, pura e simplesmente, nossa miopia ou nosso desejo ajeitam as coisas. Por que você acha que o jantar à luz de velas é o top, seu pamonha? A realidade não é pra qualquer um, não. Se fosse, Freud não teria feito carreira.

Vou mais longe. Acho que deviam estender o uso do photoshop à língua das modelos. Sim, retocar as entrevistas. Qualquer copidesque razoável poderia tornar essas moças muito mais inteligentes, interessantes e engraçadas. Vejam a ganhadora do Miss Bumbum 2011, Rosana Ferreira. Ela garantiu que “Miss Bumbum tem que ter conteúdo”. Enfim, bunda também é cultura, ou algo assim. Se isso é verdade, ela é um gênio.

Pelada ucraniana

Uma dessas ucranianas que protestam tirando a roupa declarou que o corpo é uma arma poderosa. É verdade. Muito neguinho entregou não apenas a bolsa como a vida diante da mira de um bom corpo.

À sua imagem

Dizem que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança. Então Deus está ferrado, como diz um personagem no filme “Syriana”.

À sua semelhança

Penso que se Deus fosse à imagem e semelhança da mulher, eu seria um crente fervoroso. Certo, certo, a piada é fraca. Imagino que o que aconteceu foi o seguinte: com o homem, Deus foi realista; com a mulher, se entregou à fantasia. Apenas assim se pode explicar a beleza. Digo isso em relação ao projeto, bem entendido. A execução, em muitos casos, foi infame.

A dura realidade

Nenhuma mulher é inteiramente real. Mesmo uma Margareth Thatcher não é inteiramente real. Trata-se de um truque da evolução. O mesmo podem dizer as mulheres sobre os homens. Estamos quites. Nós nos merecemos. Quem diz que os homens são de Marte e as mulheres, de Vênus, ou que os homens são de Trombudo do Norte e as mulheres, de Espumoso do Sul, é um pobre coitado que não sabe onde tem a ponta do nariz.



 

Ernani Ssó

redacao@coletiva.com.br

Ernani Ssó se define como “o escritor que veio do frio”: nasceu em Bom Jesus, em 1953. Era agosto, nevava. Passou a infância ouvindo histórias e, aos 11 anos, leu seu primeiro livro sozinho:Robinson Crusoé. Em 1973, por querer ser escritor, entrou para a Faculdade de Jornalismo, que deixou um ano depois.  Em sua estréia, escreveu para O Quadrão (1974) e QI 14,(1975), publicações de humor. Foi várias vezes premiado. Desenvolve projetos literários para adultos e crianças.

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