Colunas | 18/04/2012

As cores e os ares de abril

Márcia Martins

As cores de abril, os ares de anil, o mundo se abriu em flor. Assim começa a música de Toquinho e do poetinha Vinícius de Moraes que narra algumas belezas do quarto mês do ano, tão ausente de outros adjetivos. Por exemplo, não tem início de estação em abril. Aliás, o outono que abre suas portas e seus tons melancólicos em março, nem sempre se expõe no mês de abril. Às vezes, o quarto mês é uma mescla insólita e descoordenada de climas e temperaturas. Um encontro não programado de alguns feriados, quando a páscoa não ocorre no final de março. E até mesmo um indicativo derradeiro de que não há mais volta: o ano realmente já deslanchou e em breve nos será apresentado o segundo semestre.

Nas folhas da minha agenda, estão ausentes os pássaros mil, as flores de abril, voando e fazendo amor, tão bem narrados na composição de Toquinho e Vininha. Porque o quatro mês de 2012 foi, digamos assim, muito sem perspectivas para a minha rotina. Poucos cinemas, nenhum show, falta total de expectativas de reencontros e encontros e poesias com rimas áridas e odiosas. Quando a inspiração para juntar frases e arriscar alguma poesia se fez presente. Às vezes, nem isso.

Não teve canto gentil, de quem bem me viu. Nem mesmo nas diárias cantorias que empreendo embaixo do chuveiro. Não renovei o repertório e nem mesmo me preocupei em aperfeiçoar o canto, que seguirá nos meses seguintes, quando a vontade de cantar voltar, nos tons mais desafinados deste planeta. E num pranto desolador, que se apropriou de todas as minhas vontades em dias intercalados do mês, as cores de abril, que segundo Toquinho e Vinícius não querem saber de dor, seguiram imunes ao meu desespero.

Se a natureza realmente transforma a vida em canção, abril falhou comigo e com o meio ambiente. O mês foi um fracasso. Um total silêncio. E os dias seguiram sombrios, feios, desastrados, com chuvas torrenciais e tempestades no meu coração. Sem amores, sem sonhos, sem encontros, sem cafés com amigos, sem happys, sem disposição. Um rascunho mal feito de uma vida. Talvez porque eu não tenha cumprido exatamente e à risca um dos ensinamentos de Toquinho e Vinícius na música que diz: “vai e canta, meu irmão, ser feliz é viver morto de paixão”.

Que nos próximos meses, inundados de datas comemorativas e festivas e de aniversários para comemorar (sim, o meu no dia 9 de  junho, mas vou lembrá-los mais adiante), eu consiga de novo colocar mais cores, flores, ares, cantos e vida na minha vida.



 

Márcia Martins

marfermartins@gmail.com

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela PUC. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou carreira profissional, na Zero Hora, no Correio do Povo, em assessorias de comunicação social empresariais e públicas, e atualmente trabalha no Governo do Estado. É poeta, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS. E tem o blog marcinhaprodigio.blogspot.com.

Mario de Almeida - Rio de Janeiro/RJ/Brasil. 22/04/2012

alma minha gentil - "Melancólica esta tua bela crônica mais com cara de uma primavera que não deu certo. Esta tua crônica deu. Beijos."


Ari da Silva Teixeira - Eldorado do Sul/RS/Brasil. 22/04/2012

Folhas secas - "O outono é sempre uma prova de fogo. Não é explicito como os extremados verão e inverno. Tem folha seca caindo. Morta. E a chuva? A umidade e o calor que a imitar um veranico? É sol que não dá cor, só te deixa suado em tons pálidos. Mas quando estamos envolvidos com alguma forma de paixão, a coisa muda de figura. E entramos no clima de renovação, como uma espécie de folha nova que vai encarar, sem medo, os rigores da estação seguinte. "



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