Falta de ética é calar o jornalismo

Por Kyane Sutelo, para Coletiva.net

Apareceu o famoso 'furo de reportagem', ou, na linguagem milennial, aquela notícia bombástica. Que motivos seriam razoáveis para um jornalista não reportar tal informação? Ela não ser verídica. Caiu a pauta. Afinal, as redes sociais já estão abarrotadas das famosas fake news - nova roupagem que a mentira ganhou na internet. Outro motivo coerente seria evitar a exposição de uma fonte a riscos de violência ou morte. Exceto esses (e as dificuldades estruturais das redações atuais), poucas são as motivações que impediriam um repórter de fazer o seu trabalho.

"Falta de ética, de freio moral", foi como o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, descreveu, em entrevista à Rádio Guaíba, o ato de um jornalista de O Globo ter publicado o conteúdo de uma conversa entre Lorenzoni e o presidente Jair Bolsonaro. O próprio ministro disse que partiu do seu celular a chamada ao repórter, que deu origem a uma matéria, com o áudio do diálogo. Ele afirma que a ligação ocorreu acidentalmente e que faltou "decência" da parte do jornalista em não lhe ligar, antes da publicação.

Recorrendo ao Código de Ética da profissão no Brasil e à sua base, o direito fundamental do cidadão à informação, é possível facilmente refutar a declaração do ministro. Quando observado o teor da conversa, fica ainda mais evidente a necessidade do exercício da reportagem. No áudio, Bolsonaro e Lorenzoni articulam como lidar com o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gustavo Bebianno, após denúncias de candidatos 'laranjas' do PSL nas eleições, desentendimentos e sua exoneração do cargo, na segunda-feira, 18 de fevereiro. Quando "fatos e informações de interesse público" chegam ao conhecimento do jornalista, é seu dever divulgar, diz o inciso II, do artigo 6º, do capítulo II, do Código de Ética.

Muito nesse caso pode ser discutível e discutido. Se a ligação do ministro ao jornalista foi, de fato, acidental; o quanto o conteúdo tem relação com a investigação das candidaturas 'laranjas'; de que maneiras Bebianno poderia prejudicar a presidência de Bolsonaro; entre outras. Porém, o direito do jornalista de informar não pode, nem deve ser a pauta. Questionar o direito do jornalista de informar é questionar o direito do povo à informação. Qualquer ameaça à imprensa livre precisa ser combatida, pois ela é essência de uma sociedade democrática. A verdade, com todas as suas nuances e interpretações, é a matéria-prima dessa profissão, que precisa ter voz para contá-la ao mundo. Como escreveu o célebre Nelson Traquina "O jornalismo sem liberdade ou é farsa ou é tragédia".

Kyane Sutelo é jornalista.

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