A morte do necessário

Por Cláudia Aragón, para Coletiva.net

Ontem me senti ridícula. Não por chorar, o que faço sem culpa, inclusive pelo benefício das lágrimas à saúde. Mas por desaguar por quem nunca vi. Três vezes, sendo mais específica. Logo em seguida e horas depois de saber que Ricardo Boechat tinha morrido.

O dia foi passando pesado. Apesar de provocar o efeito manada, típico das redes sociais, onde muita gente se sente obrigada a comentar o top trending do dia, mesmo que seja para parecer informado, o fato é que a morte do colunista e âncora da Rede Bandeirantes, que nem é a líder de audiência no Brasil, tocou de verdade um sem fim de pessoas.

A companhia me fez sentir menos ridícula. E tentar entender a razão de tanta gente, independentemente de idade, sotaque, partido, gênero, cargo ou qualquer outra característica redutora, ter chorado ao mesmo tempo. O sentimento do povo impressionava mais do que o fato de a Globo, óbvia e normalmente avessa a dar notícias sobre a concorrência, não só ter aberto o Jornal Nacional com a morte do Boechat, mas dedicar o primeiro bloco inteiro do programa jornalístico mais caro do País ao assunto - foram incríveis 25 minutos de cobertura só no JN.

Claro que a competência de Boechat era indiscutível. Unânime. Uníssona. Sua humanidade também. Como disseram tantos colegas, o carioca que veio ao mundo na Argentina colocava em primeiro lugar ouvintes, espectadores, leitores. Não os gabinetes. E foi aí, justamente aí, que acredito ter enxergado a explicação.

Boechat entregava para os brasileiros, diariamente, um dos sentimentos que mais fazem falta nesses dias corruptos, mentirosos, disfarçados. Entre patrocínios escusos e relevância acionada por robôs, vivendo o individualismo adubado por fones de ouvido e assistindo influenciadores que conquistam fama bem antes dos 15 minutos profetizados por Warhol, em um país onde ser político virou xingamento, estamos perdendo nossa capacidade de confiar.

O que se foi naquele helicóptero vai além de duas vidas, contando com a do piloto. É mais do que o melhor e maior (sic) jornalista brasileiro. Entre Campinas e São Paulo, também ardia, em extinção, o conforto de acreditarmos sem reservas. Fundamental até para acreditarmos em nós mesmos.

Boechat era mais do que uma referência. Boechat era necessário.      

Cláudia Aragón é jornalista, escritora, radialista e Diretora da Believe it! Reputação, Narrativas e Diálogos.

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