A política existe para garantir o bem comum

Por Elis Radmann

Quanto mais estudo a indignação e o distanciamento da sociedade com a política, maior é a convicção de que precisamos fazer o caminho inverso: nos aproximarmos da política.

Quando falo isso, estou pensando em como a política foi idealizada, em como ela funciona de fato e em como a população se envolve e percebe a política.

Minha maior preocupação está no resgate e debate do conceito base do ser humano em sociedade: o bem comum.

Nos organizamos em sociedade, em um Estado para garantir o bem comum e a política deveria servir como uma ferramenta de manutenção e evolução desse bem comum.

Diante de tantas decepções históricas com a política, acabamos perdendo a sua essência e, por vezes, nos esquecemos até do bem comum. Motivados pela frustração e pela premissa de que todos os políticos trabalham pelo interesse próprio, optamos pelo distanciamento e pela crítica: "A política e quem está associada a ela não presta!". Pronto, a cristalização da negação da política e de distanciamento da sociedade fornece tudo o que os maus políticos precisam: condições para manter as coisas do jeito que estão!

Para se compreender o bem comum temos que retomar princípios básicos de seu conceito como: a finalidade, a noção do bem, a noção de participação, a noção de comunidade e a noção de ordem.

Um dos principais motivadores do bem comum é a finalidade, temos que compreender como algo é feito, qual a essência, o que motiva ou qual seu objetivo ou resultado.

A noção de bem vem sendo passada moralmente de geração em geração: "nunca faça para os outros o que você não gostaria que fizessem para você" e com a premissa de que "meu direito termina quando começa o do outro".

Podemos pensar na questão de participação no seu sentindo mais simplista, "se tornar parte". A política não é feita sem o consentimento de todos nós. A política também atua motivada por nosso desconhecimento, omissão ou interesse. E em todos esses casos tomamos partido, o da negligência ou condescendência.

A noção de comunidade se constitui a partir da finalidade, com a noção de bem e de participação e se fundamenta no sentimento de solidariedade e igualdade com os demais membros da comunidade.

Mas para termos uma comunidade em funcionamento, precisamos da noção de ordem, que pode ser pensada com normas de cooperação, reciprocidade, confiança e atitudes positivas que devem ser reveladas através da confiança em si, no outro e nos representantes eleitos.

Se você está pensando que este texto é para os políticos, está enganado! Só mudaremos a política se mudarmos as relações de baixo para cima. Vamos pensar em uma associação de bairro, sabemos que a participação é cada vez menor porque não percebemos a finalidade da associação, acreditamos que há interesses pessoais ou que não adianta participarmos. Se esta percepção é compartilhada por várias pessoas que saem de uma entidade, quem fica pode não ter força para estabelecer a noção de comunidade e de ordem e vai fazer o que acredita ser o certo, que pode não ser o bem comum. É como uma corrente onde cada um de nós tem um papel importante na manutenção do elo.

Se visamos ao bem comum ampliamos a capacidade de existirmos, coexistirmos e convivermos em sociedade de forma harmoniosa e assim contribuímos para o interesse público. Na prática, quando trabalhamos com as premissas do bem comum começamos a tratar uma das doenças deste século, que é a ampliação do individualismo, do egoísmo e da falta de paciência.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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