Catarinas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Perseverar no bem. Perdoar inimigos.

Lembrar da morte."

Catarina de Siena.

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Centenas de anos atrás, quando os movimentos de luta pelas causas feministas ainda não haviam nascido, a História registrava a trajetória de mulheres extraordinárias que desafiaram a supremacia masculina na vida pública e privada. O termo feminismo apenas surgiu na Europa em 1895, quando o The Daily News anunciou o aparecimento em Paris de uma organização de mulheres, tido como um movimento perigoso e que deveria ser acompanhado pelas autoridades. Não muito tempo antes, a defesa dos direitos das mulheres havia sido classificada pela Rainha Vitória como algo "imoral e obra de um bando de loucas".

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Todos nós sabemos que a era vitoriana era conservadora em sua essência e avessa a movimentos que desafiassem o status quo das estruturas sociais. Renegando - ou ignorando - o exemplo histórico de grandes figuras femininas que marcaram sua biografia pelo inconformismo e ousadia. Na Itália medieval dos séculos 14 e 15 e, mais tarde, na Rússia czarista do século 18, certas mulheres que ostentavam o mesmo nome - Catarina - deixaram um legado de pioneirismo feminista, mesmo quando o termo ainda não existia.

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Ela detestava o medo e indefinição e apregoava o uso de Io Voglio! (Eu quero!), como afirmação de propósitos de vida. Catarina de Siena foi uma teóloga do século XIV com importante papel durante o Cisma do Ocidente, quando do resgate do papa Gregório XI de Avignon para Roma, o que ajudou a restaurar a paz entre as cidades-estados da Itália. Por estas e outras, desde 1866, Catarina de Siena é considerada padroeira da Itália, ao lado de São Francisco de Assis. Em 1970, foi proclamada Doutora da Igreja e, em 1999, João Paulo II a nomeou como uma das seis padroeiras da Europa.

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Foi nos dias finais de 1499, quando uma belíssima mulher sobe ao alto das muralhas de Forlì, a cidade fortificada ao norte de Roma, vestindo couraça e elmo. Diante dos cinco mil homens do exército de Cesare Borgia que cercavam a cidade e ameaçavam matar seus filhos aprisionados, ela desafia: 

"- Façam o que quiserem, mas não me renderei nem entregarei Forlì."

E em um gesto teatral - que a História registra como lenda - ergue a saia e apontando para o baixo ventre, brada:

"- Podem matar meus filhos, pois tenho como fazer muitos outros."

Os historiadores descrevem Catarina Sforza como uma das mais notáveis figuras do Renascimento Italiano. Filha ilegítima de Galeazzo Sforza, o poderoso Duque de Milão, teve treinamento militar, embora educada de acordo com os preceitos humanistas de seu tempo.

Quando tinha 10 anos, sua família a prometeu a Girolamo Riario, sobrinho do Papa Sixtus IV e Senhor de Imola e Forli. Mas a morte do papa causa do caos em Roma, com as grandes famílias se digladiando para colocar um dos seus no trono de São Pedro. Com o marido ausente, Catarina, grávida de sete meses, lidera seus soldados em assalto ao Castelo Sant'Angelo, onde o Papa Sixtus se refugiara.

De volta a Forli, com 8.000 ducados na bolsa e com Riaro como capitão-general das tropas do Vaticano, Catarina mostra habilidades políticas. Usando seus filhos em casamento, cria alianças com os Estados vizinhos, baixa impostos e reprime opositores. Pouco tempo depois, seu marido Girolamo Riario é assassinado e quem o sucedeu, Giacomo Feo, tem o mesmo fim. Catarina vinga-se, mandando massacrar os assassinos e suas famílias.

E a saga continua - em 1497, aos 34 anos, Catarina obtém permissão do tio, o Duque Ludovico Sforza, para casar com Giovanni de Medici, da poderosa família florentina. Outra vez, o casamento acaba em tragédia:

Medici morre de pneumonia durante uma disputa entre Florença e Veneza. Então, Rodrigo Borgia é eleito papa e ambiciona expandir os Estados Pontifícios, avançando na Romanha, incluindo Forlì e Imola.

Filho do Papa Alexandre, Cesare Bórgia conquista castelo após castelo.

Em 12 de janeiro de 1500, depois de sangrenta batalha, as tropas de Borgia tomam Forlì e Catarina é enviada para Roma e aprisionada no Castelo Sant'Angelo, a mesma fortaleza que havia invadido anos antes.

Com a morte do Papa Alexandre VI, ela tenta recuperar suas terras com a ajuda do novo Pontífice, o grande patrono da arte do Renascimento, Júlio II. Mas tanto Forli como Imola se opõem ao seu retorno. Catarina passa os últimos anos da vida se dedicando aos estudos de Alquimia. Morre de pneumonia em 1509 com apenas 46 anos de idade. É enterrada no convento de Santa Maria delle Murate, em um túmulo sem lápide, conforme sua expressa vontade.

Seu neto, Duque da Toscana coloca uma lápide de mármore branco com seu nome. Quase 300 anos depois, durante uma tempestade, a lápide é destruída quando o pavimento do convento desaba. Catarina Sforza, não foi contrariada, mesmo depois de morta.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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