A política precisa de uma revisão de conceitos

Por Elis Radmann

Há várias teses para defender a ideia de que o "povo não sabe votar". Há análises que indicam que o povo é irresponsável, que é conservador e preconceituoso, que fica apático diante do que acontece, que é vulnerável aos grupos de pressão ou que é dominado pelas paixões ou pela "tirania da maioria".

De outro lado, é corrente a premissa que os partidos não prestam. A ideia predominante é de que os partidos são constituídos por políticos que atuam em causa própria, que defendem os interesses de seus apoiadores e, quando trabalham em grupo, estão tramando algo, fazendo um conluio ou se corrompendo.

Diante desse contexto, escuto sempre a mesma pergunta: o povo gosta de votar em candidato personalista ou os candidatos personalistas é que sabem convencer o povo?

A resposta a essa pergunta é composta de vários fatores conjunturais e estruturais e remonta à cultura política brasileira. Por princípio, esse debate está contido em um ciclo vicioso: o sistema político brasileiro (sistema partidário, eleitoral...) propicia práticas personalistas e os eleitores respondem com voto personalista, tentando "achar" um tipo ideal que represente os seus anseios. E o ciclo se mantém, o sistema político continua a alimentar as práticas personalistas, os eleitores continuam a responder com o voto personalista e ficamos naquela frase de senso comum: "Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha".

Para repensarmos essa realidade precisamos revisitar conceitos que vão da importância dos partidos até a necessidade da participação política. Para que esse País mude realmente, o político precisa do eleitor e o eleitor precisa do político.

Os partidos são um esteio importante de sustentação da democracia. Cabe aos partidos o debate e a reflexão sobre os rumos do País. Temos que ter a consciência de que os partidos têm (ou deveriam ter) a capacidade de representar e de governar.

E é correto e salutar que os partidos representem diferentes ideologias e convicções políticas existentes na sociedade, reunindo cidadãos adeptos à sua corrente de pensamento.

Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o eleitor, antes de se filiar a um partido político, deveria tomar conhecimento do estatuto partidário, que é a norma interna que rege sua organização e funcionamento, com o objetivo de verificar sua afinidade com o projeto político.

Na prática, a maioria da população deveria estar filiada a partidos políticos, contribuindo com ideias e com base ética (deliberando o que é certo e o que é errado). Com a ampliação da participação política haveria freios ativos nas bases partidárias, com capacidade de fiscalização e cobrança das promessas realizadas.

Mas, para tanto, os partidos precisam se revisitar. Refazer seus programas partidários e ter claro o propósito: para onde querem guiar a população? Qual a melhor estratégia econômica para o crescimento do País? Como diminuir a violência? O que pensam sobre a gestão da saúde? Quais os mecanismos reais que possuem contra a corrupção?

Mas a população não quer só ouvir palavras bonitas. Antes de qualquer coisa, para pensar em participar, a população quer ver novas práticas, novas atitudes e novos comportamentos. Isso significa que os partidos teriam que rever suas ações internas e sua relação com os mandatários de cargos eletivos, retomando o princípio básico: quem se elege é o candidato, que deve representar o pensamento do partido e das bases sociais que representa.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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