Aos trabalhadores e trabalhadoras, um excelente dia

Por Márcia Martins

Márcia Martins assina a coluna nas quartas-feiras. Como Coletiva.net não teve expediente no último 1º de maio, o texto foi publicado, excepcionalmente, na quinta-feira, 2 de maio.

A quarta-feira ensolarada amanhece tardiamente no meu apartamento encravado aqui na Avenida Independência, em Porto Alegre. Um silêncio preocupante percorre as paredes do quarto onde depositei meu sono acumulado sendo cuidada pelo carinho excessivo do cusco Quincas Fernando Martins. As mãos ainda sonolentas procuram o celular na prateleira mais próxima para saber do horário. Meus olhos recém abertos descobrem tratar-se de perto do meio-dia. Estranho o pouco movimento no edifício e a ausência de barulho dos carros nervosos descendo a lomba da Rua Barros Cassal. Antes de tudo, faço um café passado e só então providencio meu encontro com a realidade.

Descubro que o calendário assinala tratar-se de 1° de maio de 2019. E que a data comemora o Dia do Trabalho, em quase todos os países do mundo. A homenagem é uma referência ao dia 1° de maio de 1886, quando foi deflagrada uma greve em Chicago, Estados Unidos, com o objetivo de conquistar melhores condições de trabalho, já que naquela cidade, a jornada diária de trabalho chegava a 17 horas. Já no calendário litúrgico, aquele que diz respeito às cerimônias, festas e solenidades de qualquer religião, o dia celebra a memória de São José Operário, o santo padroeiro dos trabalhadores.

Olho mais de uma vez meu endereço de email antes de abrir o notebook. Nenhum recado informando que o portal coletiva não será atualizado na data. Procuro no site para ver se tem notícia postada na quarta-feira. Nada. Vou ao face em busca de um recado da xará Márcia (*) avisando que não é preciso enviar coluna. Concluo, pois, que devo escrever alguma coisa e encaminhar para a redação do coletiva ainda nesta quarta-feira, independente da sua publicação ou não.

Em consideração aos trabalhadores e trabalhadoras deste País penalizados com a retirada dos seus direitos desde a reforma trabalhista aprovada na administração do ex-presidente Michel Temer, desejo força e coragem para superar as novas adversidades que se avizinham com o governo de Jair Bolsonaro. Em respeito aos milhares de trabalhadores e trabalhadores que não podem descansar no dia em sua homenagem (muitas vezes, quando atuava em redações, tive também o meu descanso na data escamoteado), transmito a minha solidariedade e o entendimento de que, apesar de tudo, é melhor trabalhar no feriado do que estar desempregado. Em louvor a todos e todas que acordam cedo, alimentam-se de marmitas, enfrentam ônibus lotados, retornam para casa exaustos e se equilibram com um salário mínimo ridículo, meus aplausos.

Mas hoje, principalmente e mais uma vez, minha singela homenagem às mulheres trabalhadoras deste País, que embora conquistem a cada ano novos espaços, continuam a receber menos do que os homens quando desempenham funções iguais. Às mulheres trabalhadoras deste País que, depois de cumprir uma extenuante jornada de oito horas ou mais na rua, precisam continuar nas suas moradas tarefas domésticas, porque nem sempre nas relações amorosas tais lides são divididas. E, um carinho especial à querida madrinha do samba, Beth Carvalho, que nos deixou na terça-feira, 30 de abril, após 72 anos de trabalho dedicado ao samba, com 50 anos de carreira, discografia de 33 discos e 4 DVDs. Segue, Beth, cantando em outras léguas.

(*) xará Márcia, é só uma brincadeirinha.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

Comments