Lembranças de um amigo

Por Marino Boeira

Luís Augusto Cama | Reprodução

Há algum tempo venho discutindo comigo mesmo se escrevo ou não sobre Luís Augusto Cama, falecido no início de junho em São Paulo.

A dúvida é se poderei ser justo com ele, já que tínhamos tantas diferenças e não menos pontos de convergência.

Mas, hoje, tomei a decisão. Vou escrever, começando pelo momento em que o conheci.

Eu era o redator na TV Piratini, não lembro se ainda do Repórter Esso ou já do Correspondente Renner, no início dos anos 1970. O título era redator, mas eu fazia tudo para por o noticiário no ar, desde captar as notícias (rádio escuta, materiais dos demais veículos dos associados e os serviços das agências de notícias) até escrever os textos das notícias e dos filmes em sete cópias (para o apresentador, o locutor de cabine, o suíte, o sujeito do telecine, para eu mesmo acompanhar a apresentação e os arquivos) grampeadas pelo único auxiliar do departamento de notícias, o Joãozinho.

Naquele sábado, estava sozinho (normalmente dividia a tarefa com o Vicente Soares e depois o Batista Filho) quando o Cama, já publicitário, apareceu com um release de um cliente da agência de publicidade dele. A direção da emissora, para agradar aos anunciantes, normalmente mandava esses materiais para a publicação, mas invariavelmente eu os jogava no lixo.

Naquele fim de tarde, ou porque escasseasse as notícias ou porque quem trazia o material foi muito simpático, fiz diferente.

- Você sabe escrever para a TV?

O Cama disse que sabia, que tinha trabalhado no Jornal do Dia e na Rádio Difusora.

- Então senta ali naquela máquina e escreve. O menos comercial possível, por favor.

Ele fez isso.

Um ano depois, o Flávio Correa que conheci na televisão (era filho de um dos "condôminos" dos associados) e era dono de uma agência de propaganda, me convidou para trabalhar com ele, para ganhar mais dinheiro do que como jornalista.

Eu fui ser redator de publicidade na Standard e o seu diretor de Criação era o Luís Augusto Cama.

Trabalhamos juntos durante uns dois ou três anos. Tínhamos praticamente a mesma idade e uma boa relação pessoal, mas nunca chegamos a ser amigos realmente durante esse período.

O Cama representava a Direção e eu continuava sendo um inconformado com o sistema e um crítico da ordem capitalista, da qual a publicidade era um esteio.

Depois, troquei de agências e ele ficou sempre na Standard, depois Ogilvy, onde fez uma carreira de sucesso, chegando aos seus mais altos postos.

Quando nos aposentamos, eu, modestamente, como professor universitário pelo INSS e ele naquele esquema de grandes mordomias das multinacionais, por alguma razão voltamos a nos encontrar periodicamente.

Como ele, mesmo morando em São Paulo, mantinha casa em Gramado e eu, durante algum tempo vivi por lá, praticamente todos os meses tínhamos um ou dois encontros numa mesa de restaurante ou de café.

Quando voltei a Porto Alegre continuamos essas conversas periódicas.

Nunca superamos nossas diferenças políticos - diria que ele era um centrista e eu fazendo questão de me apresentar como comunista - mas sempre conseguimos manter boas relações, falando sobre nossas lembranças  do passado de Porto Alegre, os velhos jornalistas e publicitários, os filmes inesquecíveis e os cinemas de bairro e um tema inusitado, os bondes da Carris.

Na última eleição presidencial, ele, que era muito crítico do PT, disse que votara no Alckmin no primeiro turno e em branco, no segundo, apesar das minhas críticas de que com isso estaria ajudando o Bolsonaro, que ele também detestava.

Invariavelmente, nossos encontros terminavam com ele sempre me dando um livro de presente.

O último foi uma biografia da Rosa Luxemburgo.

Há menos de um ano foi surpreendido por um câncer extremamente agressivo, mas nunca perdeu a esperança na cura e na curiosidade sobre o trabalho dos seus médicos e tratamentos.

A última novidade era um medicamento norte-americano no qual ele levava fé.

Ele nunca falou na proximidade de uma morte próxima, nem revelou algum tipo de receio sobre a sua chegada, embora já se pudesse perceber que a doença estava deixando marcas muito fortes nele.

Depois da última vez que nos encontramos, no restaurante Bah, aqui em Porto Alegre, no início de maio, perdi meu celular e com ele todos meus contatos, inclusive o telefone dele.

Fiquei esperando uma ligação dele, que era comum, mas que nunca veio.

Foi lendo Coletiva.net que descobri que ele tinha morrido em 9 de junho.

Autor
Formado em História pela Ufrgs, foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação, nas universidades PUC e Unisinos. É autor dos livros "Raul", "Crime na Madrugada", "De Quatro", "Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda" e "Tudo Começou em 1964", que tem formato de ebook.

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