Ninguém perde por amar demais

Por Márcia Martins

Às vezes no silêncio da noite, eu fico imaginando nós dois, eu fico ali sonhando acordada, juntando o antes, o agora e o depois. Não. Desculpa aí Peninha, o compositor da música de nome 'Sozinho', que costurou palavras muito lindas e encadeadas na letra cantada tão bem pelo Caetano Veloso. Já passei há longo tempo desta fase bonita e cor de rosa do tal romantismo. Mas eu fico, sim, em vários silêncios meus, nos dias e nas noites, porque costumo conviver nem sempre tão bem como deveria, nesta altura da maturidade, com as minhas solidões, imaginando se eu não errei em várias situações, namoros, relacionamentos, amizades e enlaces familiares ao amar demais.

Pergunto se não terá sido um equívoco imperdoável me doar assim tão integralmente, de corpo e alma, de olhos vedados, sem medir as consequências, as dores e as cicatrizes futuras, àquele homem que, um dia, me jurou amor eterno. Mas depois descobri que ele estava com seus dedos cruzados escondidos atrás das costas. Logo eu que sempre declamei sem errar a última estrofe do Soneto de Fidelidade do poeta Vinicius de Moraes, "que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure", fui acreditar em juras secretas ditas entre cenas quentes mal iluminadas pelo abajur cor de carne, lençóis azuis e cortinas de seda.

Não trago mais tanta certeza se mimar, paparicar e dar atenção em excesso às amigas mais fiéis e guardadas do lado esquerdo do peito foi a atitude mais correta que realizei nesta minha vida hoje já tão marcada pelas rugas no rosto que insisto, inutilmente, em esconder. Porque, ainda na carona da música do Peninha, de vez em quando, elas me deixam tão soltas, tão sozinhas, não colam em mim e nem respondem aos meus chamados mais intensos e mais lastimosos. Logo eu, sempre extremamente prestativa e disposta a mover mundos e fundos para ajudar as amigas nas encrencas, ser companhia nas fossas e auxiliar a secar as lágrimas.

Nestes momentos dolorosos de desapego que experimento, ao selecionar o que levo ou não para a nova morada, como se fosse possível separar em sacos de lixo sentimentos recicláveis e não recicláveis, me pego, com uma frequência perturbadora, indagando se não fui, em muitos momentos familiares, alguém que dedicou mais amor do que recebeu. Ao folhear retratos de aniversários, páscoas, festas de Natal, formaturas da filha, comemorações na creche, férias nas praias, colados nas páginas dos álbuns de recordações, me pego calculando se não coloquei os meus interesses pessoais e profissionais sempre em último lugar. Logo eu a mulher feminista, segura e dona do seu nariz.

São angústias que me atormentam nestes ritos de rupturas, de transformações, de remexer em gavetas, de revirar os armários, de jogar fora algumas lembranças sumidas das anotações em diários e agendas, mas eternizadas em meu coração. São perguntas que ficam, nestas sessões de desapego, martelando a minha inteligência emocional. Mas, apesar de tudo, sempre saio com uma única certeza de que coloca por terra, pelo menos na teoria, tanta angústia: quando a gente gosta, é claro que a gente cuida, mima, paparica, fica em volta, não deixa de telefonar, querer notícias, convidar para tudo e nem sempre esperar algo em troca.

Dizem que ninguém perde por dar amor. Perde quem não sabe recebê-lo ou não tem o coração tão imenso para abrigar o amor incondicional que não mede, porque o amor é paciente, é bondoso, não inveja, não vangloria, não se orgulha. O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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