O pássaro

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"As gerações futuras terão dificuldades em aceitar

que este homem existiu e caminhou sobre a Terra."

Albert Einstein

Foi no tempo em que o líder pacifista indiano Mahatma Gandhi estudava Direito em Londres. Ele queria conhecer os fundamentos da lei inglesa para embasar sua campanha contra o domínio colonial. No entanto, um certo Mr. Peters, professor da University College, percebeu de imediato as verdadeiras intenções de Gandhi. Repreendia seu sotaque, sua maneira de vestir e sua atitude em aula. O clima de animosidade se agravou na medida em que Gandhi não baixava a cabeça, como era de se esperar, encarando desafiadamente Mr. Peters, enquanto este falava.

***

Um certo dia, Mr. Peters almoçava no refeitório da universidade quando Gandhi chegou com sua bandeja e se sentou à mesa. O professor se ergueu e, em voz alta, o reprimiu:

"- Mr. Gandhi, o senhor não entende - porco

e pássaro não sentam juntos para comer."

Suspense no refeitório, alunos e professores atentos e em silêncio. Então, o indiano encarou Mr. Peters da forma como um pai tolerante faria com um filho mal comportado e, calmamente, replicou:

"- Não se preocupe, professor, eu voarei para longe."

Levanta-se e vai para outra mesa, sob o aplauso dos alunos, enquanto professores se limitam a um sorriso discreto. Desde então, um Mr. Peters enfurecido prepara sua vingança. Passa a endurecer as questões orais e escritas, às quais Gandhi responde sem erros. O professor, cada vez mais frustrado, propõe, então, uma questão capciosa:

"- Mr. Gandhi, se o senhor encontrasse na rua um pacote com um saco de dinheiro e um pote de sabedoria, qual dos dois escolheria?"

Sem hesitação, Gandhi responde:

"- O saco de dinheiro, naturalmente."

Mr. Peters sorri vitorioso e insiste:

"- Mas, no seu lugar, eu ficaria com o pote de sabedoria, não?"

Gandhi dá de ombros, ajusta a túnica sobre os ombros magros:

" - Cada um escolhe o que não tem."

***

O episódio frustra ainda mais o homem, que tenta imaginar uma situação capaz de dobrar aquele aluno tão desrespeitoso e atrevido. Chega o dia das provas finais. Mr. Peters corrige as folhas de exame e as devolve com as notas de cada aluno. Na folha de Gandhi escreve as palavras 'Grande Idiota' e aguarda a reação.

Em silêncio, a classe observa Gandhi, que olha pensativo para a folha à sua frente. Os minutos passam lentamente. Gandhi vai até a mesa do professor e, em tom polido, mas temperado com ironia, observa:

"- Mr. Peters, o senhor assinou a folha, mas esqueceu

de me dar uma nota."

***

Cinquenta e sete anos mais tarde, em 1948, Mohandas Karamchand Gandhi, então conhecido por Mahatma (ou Grande Alma) é assassinado por um fanático. No funeral, o primeiro-ministro Jawaharlal Nehru fala à jovem nação independente, encerrando a oração com uma frase que resume o humanismo do Mahatma:

"O homem é um produto de seus pensamentos.

O que ele pensa, ele se torna."

***

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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