Passos ociosos

Por J. A. Moraes de Oliveira

"É preciso caminhar a passos ociosos,
anotando detalhes,sem ser notado e sem
interferir na paisagem. Saber do passado
e das lendas de cada lugar, mesmo sendo
um simples cour ou uma praça no final da rua".

Charles Baudelaire

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A moça de longos cabelos castanhos fazia sua primeira visita a Paris. No entanto, a Cidade Luz já lhe era intensamente familiar, quase uma amiga íntima. Leitora compulsiva, ela passara dois anos estudando francês para ler no original Guy de Maupassant, Victor Hugo e Gustave Flaubert. Pela mão de Charles Baudelaire, percorrera os Grands Boulevards e se aventurara pelas ruelas do Quartier Latin. Mas ao fim, coube aos escritores norte-americanos exilados dos anos 20 e 30 despertar-lhe uma incontida e ardente vontade de mergulhar nos mistérios e fascínios de Paris.

Mas, por onde começar? Tantos lugares, tantos segredos - e tão poucos dias para fazer tudo o que anotara no caderno de capa verde. Seria bom - pensou - começar pelo bairro dos boêmios e artistas de antigamente, Saint-Germain-des-Prés. Então, naquele mesmo minuto, viu um ônibus passar na rua à sua frente. No letreiro, o aviso:

Ligne 86 - Saint-Germain-des-Prés>Saint-Mandé.

Era seu destino chamando, pensou; e no minuto seguinte, estava a caminho do bairro de Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Alice Toklas e Gertrude Stein. Pouco depois, ela desembarcava no lugar que esteve presente em seus sonhos - a Place Saint-Germain-des-Prés. Era ali mesmo, no Café de Flore ou, ao lado, no Les Deux Magots que Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre passavam horas tomando café e discutindo política, arte e filosofia. Hesitou por um momento, pensando em um café-au-lait naqueles lugares famosos, mas desistiu e foi em frente. Sabia que seria uma emoção sentar-se à uma mesa por onde passaram Marcel Proust, Josephine Baker, Pablo Picasso ou mesmo a deslumbrante Josephine Baker. Mas a moça de cabelos decidiu seguir adiante.

A caminhada a levou bem mais longe. E foi, meio distraída, que se deu conta estar no Boulevard du Montparnasse, perto do ponto de encontro de antigas figuras da poesia e das artes. Procurou pelo numero 105, onde reconheceu o letreiro La Rotonde dominando a célebre esquina. Abriu o caderno verde e leu as anotações sobre os personagens que começaram suas carreiras em bistrots e bancos de praça. Em uma das mesas da esplanada, Henri Matisse e Amadeo Modigliani jantavam juntos e às vezes, pagavam a conta com desenhos em guardanapos. Que os garções guardavam com zelo, para vender, anos mais tarde por pequenas fortunas. E foi ali mesmo, no La Rotonde, que o fotógrafo surrealista Man Ray conheceu e se apaixonou pela bela Alice Ernestine Prin, conhecida como Rainha de Montparnasse. Ela era uma grande diva, cantora, atriz e modelo ferozmente disputada por Pablo Ruiz Picasso, Jean Cocteau e Alexander Calder.

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Ela continuou a busca de evocações colhidas nos livros que lera e relera. Desceu o Boulevard Saint-Germain e caminhou até a Rue de l'Ancienne Comédie. Diante do nº 13, se deixou encantar com as portas vermelhas de um dos mais veneráveis restaurantes da França, o Le Procope. Em seus luxuosos salões, bebiam e jantavam Honoré de Balzac, La Fontaine, Victor Hugo, Molière e Racine.

E as lendas contam ainda que ali Benjamin Franklin redigiu o primeiro rascunho do que seria a Declaração de Independência dos Estados Unidos. Mais adiante, no número 115, a incansável moça de cabelos castanhos se encontra com a centenária Lipp - a antiga brasserie onde Marcel Proust tomava cerveja e Antoine de Saint-Exupéry sorvia taças e taças de Krug. Muitos anos depois, um outro personagem famoso se sentaria em uma das mesas do fundo para escrever relatos de guerra: Ernest Hemingway. A próxima parada da flâneurie da moça de cabelos castanhos foi no Boulevard du Montparnasse, diante da La Closerie des Lilas. Ela lembrou dos vários personagens que frequentaram a varanda florida. Entre as mesas, circulavam Paul Cézanne e Salvador Dali, Théophile Gautier e o poeta Paul Verlaine. E ali Ernest Hemingway rascunhou o primeiro capítulo de O Sol Também se Levanta.

Chega a hora do almoço e ela repete os passos de escritores e poetas que gostavam de comer, seguindo em procura da Rue Mouffetard, no ponto onde o Quartier Latin se encontra com o Jardin des Plantes. Caminha sem pressa pela rua, pontilhada por lojinhas de comida, cafés, bistrôts indianos e tendas vietnamitas. Nas bancas das calçadas, peixes, ostras, aves e carnes de coelho e javali. Nas barracas, perdizes, codornas e patos inteiros pendurados em ganchos, que as pessoas examinam com olhos gulosos.

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Sentindo-se esfomeada, ela descobre ao lado de um velho casarão, um pequeno e simpático restaurante, que tem lousa à porta com o plat du jour. O convite é tentador: Salade de Champignons Sauvages, Galette avec Pâte à blinis. Na mesa junto à janela, uma senhora de cabelos brancos está debruçada sobre um prato de douradas fatias de baguette, enquanto se serve do rouge de meia-garrafa sem rótulo. A moça de cabelos castanhos entra no bistrot, repetindo baixinho o que escrevera em seu caderno verde:

"Devemos andar em Paris como um príncipe disfarçado, colhendo prazeres em todos os lugares da jornada".

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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