Piratas e filibusteiros

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Foi em um banco de pedra, debaixo de jacarandás e pés de jasmim-manga que eu li - melhor, devorei - meu primeiro livro de aventuras: "A Ilha do Tesouro" de Robert Louis Stevenson. Ao fechar o livro, eu estava em mares distantes, junto do garoto Jim Hawkins, ouvindo estórias que o lobo do mar Long John Silver contava sobre o tesouro enterrado em uma ilha perdida. Como um passe de mágica, aquele banco de pedra, cercado por jacarandás e jasmins-manga, se havia transformado em uma porta para um mundo habitado por piratas e filibusteiros.

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O banco, os jacarandás e os jasmins-manga ficavam em um casarão branco, no caminho de todos os dias para o Colégio do Rosário. Bem no meio da subida da rua João Telles, onde morava o Telmo Scalzilli. Era meu amigo e colega de classe - e naquele casarão havia coisas mais interessantes do que as flores do jardim. O pai do Telmo era um apaixonado colecionador de livros de aventuras.

Uma grande sala, com janelas para o jardim, guardava centenas de livros de estórias de espadachins, pistoleiros, bucaneiros, detetives, viajantes do espaço e velhos lobos do mar.

Estavam arrumados por autores, em prateleiras que iam até o teto. Um convite para viagens ao universo de sonhos e fantasias. Eu caminhava junto as estantes, correndo os olhos pelas capas coloridas. Lendo baixinho: Julio Verne, Alexandre Dumas, Conan Doyle, Monteiro Lobato, Jack London, Emilio Salgari, Daniel Defoe, Karl May, Lewis Carrol, Robert Louis Stevenson...

Eu imaginava que seria preciso mais do que uma vida inteira para ler tudo aquilo. Era grande a vontade de ler outras estórias de piratas, bandoleiros e de tudo o mais em que pudesse botar as mãos.

No entanto, era preciso a ajuda do meu colega para chegar aos livros. Telmo então contou o trato que tinha com o pai. Funcionava assim: cada boa nota no boletim, dava direito escolher livros, seguindo uma tabela:

Nota 7, um livro

Nota 8, dois livro,

Nota 9, três livros,

Nota 10, cinco livros.

Suspirei desanimado - notas altas não eram meu forte. Eu precisava imaginar uma moeda de troca para negociar com o Telmo, que sempre tirava notas altas - 9 ou 10. Mas que nunca achava tempo para ler os livros a que tinha direito. Levei um tempão matutando como poderia convencer o Telmo a ceder os livros que ele não lia.

Foi quando mexendo nos guardados, achei o que poderia me salvar. Era um saquinho com bolinhas de gude, que ganhara no Natal e que estavam esquecidas em um canto. Eu era péssimo com bolas de gude - na única vez que tentei jogar, perdi quase metade delas. Dois dias depois, encontrei o Telmo na saída do Rosário e lhe fiz a mais indecente proposta que fui capaz de imaginar.

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Naquele ano, as férias de julho não foram monótonas como as dos anos anteriores. Desta vez, eu tinha bons companheiros nos dias chuvosos e úmidos do inverno de Porto Alegre. Estavam comigo Flash Gordon, Capitão Nemo, Miguel Strogoff, Tarzan dos Macacos, Os Quatro Homens Justos e o velho lobo do mar, Long John Silver.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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