Porto que te quero de novo alegre

Por Márcia Martins

A cidade onde nasci, que sempre me abrigou, me acolheu, me viu crescer, amadurecer, levar tropeços na vida e dar a volta por cima, que foi minha morada em bairros distintos, me viu passar por diferentes etapas da vida pessoal e profissional e, inclusive, motivou algumas vezes recusas de convites para trabalhar em outros municípios deste Brasil, comemora 251 anos no dia 26. E por ter essa relação mais que umbilical com a capital do Estado considero-me capacitada para pedir que ela volte a ser uma cidade humana, limpa, geradora de empregos, iluminada, com transporte público eficiente e uma população com orgulho de seu pertencimento.

Porto que te quero de novo alegre. Porto que te quero de novo com qualidade de vida. Porto que te quero de novo uma das mais verdes cidades do País. Porto que te quero de novo com segurança para quem transita pelas ruas. Porto que te quero de novo com vagas nas escolas para as crianças estudarem. Porto que te quero mais uma vez a cidade com obras de circulação viária para melhorar a fluidez do trânsito. Porto que te quero de novo como eu te vi um dia!

Para quem, como eu, utiliza o transporte público para as pequenas saídas necessárias de uma aposentada, fica com uma vergonha danada do descaso da administração municipal com os ônibus. A linha que me atende, num bairro que tem uma população considerável e ainda na área central da cidade, tem horários de meia em meia hora. Inexplicável. Dia desses, juro por tudo que é mais sagrado, tive a impressão que o ônibus iria se desmanchar na próxima quadra, de tanto que batia a lataria e estava caindo aos pedaços. Nem vou falar do calor insuportável pela falta de ar condicionado porque a coluna se estenderia.

E antes que os defensores do indefensável me atirem pedras ou peçam direito de resposta, convido-os a um passeio despretensioso em determinadas linhas de ônibus de Porto Alegre. De preferência, em horário de pique. A minha filha já desafiou, no seu twitter, o prefeito Sebastião Melo a utilizar a linha 343, às 18h, sem sinal de ar condicionado, para que o gestor viva a experiência de ser tratado como sardinha enlatada.

Porto que te quero de novo com praças e parques cuidados todos os dias e não somente na semana do aniversário para render uma foto bonita nos jornais. Mais uma vez, tratarei de um local bem próximo para exemplificar o abandono do Poder Municipal com estes locais. Perto da minha residência atual, situa-se a Praça Garibaldi, limitada pelas ruas Lobo da Costa e José do Patrocínio e pelas avenidas Venâncio Aires e Érico Veríssimo, na divisa entre os bairros Cidade Baixa e Menino Deus. Simplesmente impossível utilizar aquele espaço.

Na parte da Garibaldi, separada da Lobo da Costa pela Escola de Educação Infantil Túnel do Tempo, existe um cachorródromo e uma pequena área com brinquedos para lazer infantil. Os dois atrativos quase não podem ser usados. Transformaram-se em moradias improvisadas (já que não temos política habitacional no município), em pontos de consumos de drogas (a qualquer hora do dia) e em puxadinho dos moradores esporádicos de uma pensão que fica na frente da Praça na rua José Bonifácio. O lixo que ali se acumula é desesperador e a falta de segurança para cruzar a praça é perturbadora.

Por essas e outras, eu quero (se possível ainda nesta encarnação), aquela Porto Alegre de volta. Porto que te quero de novo alegre como no poema "O Mapa da Cidade", do Mário Quintana, onde eu pudesse mais uma vez olhar tuas ruas como se examinasse a anatomia de um corpo.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]

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