Rompendo ventos

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Quem nasceu para andarilho

inventa ventos em si ?"

Apparício da Silva Rillo.

 

"Amavam seus cavalos que rompiam ventos

E bandeavam arroios como um barco ágil."

Apparício Silva Rillo.

***

A mais persistente lembrança que permanece daquelas noites do Passo Grande é do vento assoviando pelas frestas do telhado. Muitos anos passados, quase uma vida inteira depois, ouço o mesmo assovio sibilante. Estou em uma cidade estranha, em outro país, muito longe, ao Norte. Não há prados verdes nem coxilhas ondulantes. Grandes paredões de pedra, picos nevados e campos riscados por caminhos sinuosos. Até os cavalos são estranhos: pôneis peludos, atarracados e de olhos tristes. Algo familiar - as manchas imóveis e silenciosas de ovelhas na turfa. E, de súbito e sem aviso, um vento polar, violento e cortante, que parece me empurrar de volta para casa.

***

Meu avô Patrício, antes de mandar os peões para o campo, chegava na beira do campo e olhava para o alto das árvores. Ele tinha seus secretos, de como antever a chuva, o frio e quando sopraria o minuano bravio, que curvava os umbus e tocava o gado para o abrigo dos capões.

Ele sempre acertava. Quando notava quieto o topo dos eucaliptos ou o calor do sol evaporando o orvalho, sentenciava:

"- Hoje não chove. Talvez amanhã."

Logo se ouvia o alarido dos cachorros disparando atrás do galope de homens e cavalos a caminho das invernadas. Começava mais um dia dos longos verões de infância. Um tempo distante, com horas preguiçosas e pessoas sem pressa. Que nem sonhavam ir muito além da vila e do bolicho do gordo Joaquim. Homens no campo, mulheres na cozinha. As crianças, aqui e ali, inventando travessuras. Subir na árvore mais alta. Procurar ovos de perdiz ou filhotes de lagarto nas pedras quentes. Ou na hora da sesta, roubar pêssegos maduros no pomar da avó Augusta. Um território proibido, mas um primo mais cascudo sabia de tábuas soltas no cercado. Então, depois de dias de sol de ferver melancias, chegava a lua nova e o avô anunciava:

"- Vão romper ventos e trovoadas."

Dito e feito. Nos dias seguintes, o céu se cobria de nuvens e chegava o vento do Sul. Às vezes, era o Pampeiro, um vento quente que trazia chuvarada no rastro; ou o temido Minuano, que assoviava nas frestas e vãos das paredes de tábua a pique. Ao invés das lides campeiras, os homens assavam costela de ovelha, mateavam e falavam de vivos e de mortos. Na cozinha, mulheres mexiam nos panelões fumegantes de figada e doce de goiaba.                                  

Para as crianças, sobrava observar o negro Edu trançar couro e reparar atavios - o que poderia demorar um dia inteiro. Melhor era folhar velhos almanaques Eu Sei Tudo, reler as fábulas de LaFontaine ou notícias de guerras que há muito haviam terminado. Enquanto isso, as mulheres retiravam dos baús acolchoados e cobertores de lã merina, com cheiro forte de naftalina. Era um prenúncio que o frio estava por chegar. Ainda caiam os aguaceiros da estação que findava, lavando campos e animais.

Depois, os ventos que nasciam no polo, variam a Patagônia, enfureciam o Rio de La Plata, corriam pelo pampa e encarpelavam ondas na Lagoa dos Patos. Um vento que começava manso, quase silencioso, movendo levemente os altos galhos nas árvores.

Então, os redemoinhos de poeira, a bateção de portas e janelas. Virava uma correria para fechar tudo, recolher os potrilhos e as éguas prenhas, juntar lenha na dispensa e travar o cata-vento.

O minuano havia chegado.

***

O nome do homem de gorro de lã e grossas costeletas brancas é Sven. Ele estava sentado no banco ao nosso lado. Pergunto como é a vida no inverno ártico. Ainda estamos na Primavera, mas da janela, se vê uma neblina escondendo montanhas e a praça deserta, varrida pelos ventos. Sven parece tranquilo, dizendo que nada daquilo não é motivo de susto:

"- Quando o Inverno chega, ficamos em casa.

Estamos acostumados, sempre foi assim, desde o tempo dos vikings."

Ele mora em Ísafjördur, uma pequena cidade no noroeste da Islândia, onde o Inverno dura de cinco a seis meses. Para os islandeses, ainda vale o antigo calendário nórdico, que tem só duas estações: Inverno e Verão.

Sven faz uma pausa, bebe um gole de Brennivín, uma aguardente de polpa de batata fermentada e cominho, que também chamam de Svarti dauði, ou Morte Negra:

"- O pior do Inverno é a escuridão, com poucas horas de

luz por dia, das doze às quatro da tarde.

Mas quando sopra o polar, a luz desaparece.

A vantagem dos dias de Sol são as auroras e crepúsculos

que pintam o céu de lilás e cor de rosa."

Sven conta como são os dias de inverno: as pessoas acordam no escuro, vão à rua no escuro, voltam para casa no escuro e as luzes ficam acesas o tempo todo. E se alegram quando não sopram os ventos do Ártico, que trazem nevascas, cobrindo casas, carros e ruas com camadas e camadas de gelo duro como pedra. Ele conclui sua estória, toma um longo gole de Brennivín, veste um pesado casacão de neve e sai para o frio.

Eu ouvia tudo aquilo, lembrando das longas noites de inverno no Passo Grande. E da escuridão que se fechava sobre nós, quando a mãe apagava o lampião na mesa de cabeceira. Ou quando, em uma madrugada gelada, vi o avô, de poncho de campanha, andando na chuva para acalmar os cachorros que ganiam com o uivo do minuano.

***

"Os ventos e seus gemidos, traziam

lembranças da criança que um dia fui."

 

"(...) Laçavam de todo o laço, amanuseavam potros,

Fumavam grossos palheiros de bom fumo.

E amavam seus cavalos que rompiam ventos

E bandeavam arroios como um barco ágil".

Apparício Silva Rillo.

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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