Vitoriosos e derrotados

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Trate seu inimigo de tal forma que

ele não pense em se vingar amanhã."

Júlio César.

O ato final da II Guerra Mundial foi marcado pela assinatura dos termos da rendição do Japão, em plena Baia de Tóquio, no dia 2 de Setembro de 1945. A cerimônia foi planejada milimetricamente por um estudioso da história militar, o General Douglas MacArthur, Comandante das Forças Aliadas no Pacífico. Anos mais tarde, ele diria ao seu biógrafo que foi uma tentativa de reproduzir um momento marcante da História - a rendição de Granada, que marcou o final do domínio muçulmano na Península Ibérica.

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Granada era a última fortaleza moura em terras de Espanha, a cidade monumento que simbolizava o legado mourisco de uma ocupação de mais de oito séculos. Naquele ano de 1492, a cerimônia da rendição de Granada foi marcante, com ritos de pompa e circunstância. Diante de 100 mil muçulmanos, cristãos e judeus, o rei de Granada, Boabdil, entregou as chaves da cidade aos reis católicos, Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela. Os procedimentos seguiram a recomendação expressa do Papa Alexandre VI, de conceder dignidade aos derrotados muçulmanos, mas sem deixar de afirmar a supremacia dos cristãos vencedores.

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Mais de 450 anos depois, Douglas MacArthur designa a mais poderosa belonave da Marinha dos Estados Unidos para sediar o ato de rendição  do Japão. Ele poderia ter escolhido um palácio imperial em Tóquio, mas optou pelo simbolismo: um navio de guerra, afirmação do poder do vencedor. O navio escolhido pela Marinha era o USS Dakota, encouraçado que lutou em batalhas decisivas no Pacífico. No entanto, MacArthur decidiu pelo USS Missouri - mais simbolismo - que carrega o nome do estado natal do presidente Harry Truman.

Um outro detalhe que deve ter sido particularmente humilhante para os orgulhosos generais e almirantes japoneses - o USS Missouri foi ancorado exatamente na latitude e longitude do navio do Comodoro Perry, que, em 1845 ocupou a Baía de Tóquio, abrindo os portos japoneses à navegação mundial e decretando o final da era medieval Edo.

Mais um gesto de dominação: MacArthur manda trazer da Academia Naval de Washington a bandeira original do Comodoro Perry, que foi hasteada no momento exato em que a delegação japonesa sobe à bordo. Uma vez no convés, os militares e diplomatas são conduzidos à mesa cerimonial, passando diante da guarda de honra, formada por fuzileiros veteranos de Guam e Guadalcanal.

A cena, do ponto de vista de dezenas de fotógrafos e cinegrafistas, devia ter sido impressionante - os representantes do Império do Japão, ministro das Relações Exteriores, Mamoru Shigemitsu e o general Yoshijiro Umezu em uniformes de gala, diante dos comandantes aliados, usando uniformes de campanha. A delegação nipônica foi postada junto à torre dos nove gigantescos canhões de 406 mm que apoiaram a invasão de Iwo Jima e Okinawa. Mais simbolismo, impossível.

Então, no momento em que os japoneses regressam à terra, 400 caças e bombardeiros dos Estados Unidos, China, Grã-Bretanha, União Soviética, Canadá, Austrália, França, Holanda e Nova Zelândia ocupam o céu da Baía de Tóquio. E no galhardete hasteado na proa do US Missouri, o lema do conquistador Douglas MacArthur:

"Não existe substituto para a vitória."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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