Juremir Machado da Silva: Polemista por estilo

O jornalista enfatiza que tem opiniões que o levam a cutucar mitos como Verissimo e Chico Buarque

Em 1970, praticamente não havia televisores em Palomas, cidade da Região da Campanha. O então menino, de oito anos, Juremir Machado da Silva acompanhou a Copa do Mundo pela Rádio Guaíba e assim, prematuramente, começou sua paixão pelo Jornalismo, especialmente por coberturas esportivas.


Juremir nasceu em Santana do Livramento, em 29 de janeiro de 1962, e viveu no interior até 1980, quando veio para Porto Alegre, estudar na Famecos (Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUC). "A opção pela profissão foi uma conseqüência do gosto de ouvir a cobertura esportiva pela Guaíba. Eu ouvia e pensava: "Quero fazer que nem eles". Mas quando entrei na faculdade, não queria mais isso", conta. Suas primeiras experiências foram com jornais amadores, "como tudo mundo faz". O primeiro foi O Malcriado, que contava ainda com a participação de Telmo Borges Flor. Depois partiu para A Folha de Viamão, que "era meio caminho para um Jornalismo de ganhar a vida". Concomitantemente, participou do projeto humorístico The Porto Alegre Times, um jornal no estilo do Casseta & Planeta, no qual atuou junto a Cyro Silveira Martins.


Já formado, em 1986, entrou para a equipe de esportes de Zero Hora, sob a chefia de Nilson Sousa. Essa primeira experiência profissional fez com que ele voltasse às origens, resgatando sua paixão pela cobertura esportiva. Quando estava prestes a completar cinco anos no jornal, pediu demissão, para se dedicar ao doutorado em Sociologia, na Universidade de Sourbone, França.


Em 1993, Augusto Nunes assumiu como diretor de Redação do jornal e recontratou Juremir, que passou a atuar como correspondente. "Essa experiência foi a melhor possível, fiz tudo aquilo que a gente sonha em fazer na profissão: muitas viagens, coberturas variadas, coisas diferentes", lembra. Durante o período, cobriu diversos festivais de cinema, em Cannes, Berlim e Veneza, o Salão de Livros de Paris, a Bienal de Frankfurt, o Salão do Automóvel em Genebra, acontecimentos esportivos, como Liga de Vôlei e até o episódio da morte de Ayrton Senna. Os trabalhos renderam uma série de crônicas, relatando suas viagens por 11 países da Europa. De volta ao Estado, dois anos depois, sua permanência no veículo da RBS não duraria muito.


"Fase de peste"


"Quando eu voltei, já estava muito acostumado com a especificidade do Jornalismo francês, que não chega a ser de grande investigação como o americano, mas é de muita crítica, de polêmica, de desconstrução de mitos", diz. Foi quando escreveu em sua coluna semanal em Zero Hora um comentário sobre a atuação do escritor Erico Verissimo durante o regime militar. Para Juremir, Erico poderia ter sido "mais valente" em suas contestações contra a censura e a tortura da época. O filho do escritor, Luis Fernando Verissimo, também colunista do jornal, contestou a crítica. "Ele me perguntou "Queria que meu pai fosse para guerrilha?" Claro que não era isso, mas se ele tivesse se manifestado, teria exílio em qualquer país", justifica.


Hoje Juremir confessa que fez o comentário também para provocar Luis Fernando, mas o colunista não gostou e ameaçou se demitir caso não houvesse uma retratação. Após várias tentativas de apaziguamento apresentadas pelo editor-chefe, Marcelo Rech, o polemista optou por deixar o jornal. Entrou numa "fase de peste, ninguém queria chegar perto". Então retornou para a França, onde ficou por três meses.


De volta ao Brasil, seu primeiro trabalho foi na revista Istoé, na editoria de Internacional, a convite do diretor de Redação, Tão Gomes Pinto. Não deu certo porque Juremir se cansava com as viagens semanais entre Porto Alegre e São Paulo, achava chatos os textos que fazia e, principalmente, porque entrou em choque com o também recém-chegado à revista Luciano Suassuna. Este, em pouco tempo, assumiu como editor-chefe e acusava o jornalista de estar tentando reinstaurar a extinta Istoé Senhor. "Achei engraçado e comecei a dizer que ele queria instaurar a "Istoé Caras". Mas na verdade eu não tinha pretensão nenhuma e nem poder para isso", se diverte, explicando por que não chegou a completar quatro meses na revista.


Foi quando decidiu fazer outro curso, um pós-doutorado, também na França. Foi em 1998, ano em que se dedicou a ser free-lancer da Folha de S. Paulo, fazendo o que gosta, como entrevistas com intelectuais.


Recusas por Porto Alegre


Um ano depois, estava de novo na capital gaúcha, pela qual chegou a recusar algumas ofertas de emprego. Não aceitou os convites para trabalhar na Folha de S. Paulo nem para ser editor do Caderno B, do Jornal do Brasil, porque teria que deixar a cidade. Também recusou a possibilidade de editar a Gazeta Mercantil Sul, pois teria que se dedicar exclusivamente a isso e ele não poderia permanecer na PUC, onde dá aulas desde 1995. "Existe uma relação de amor com a universidade, é onde estudei, tenho grandes amigos e me sinto em casa. Mas também é um ótimo emprego, gosto da vida acadêmica e essa é a minha atividade principal", diz.


Em 2000, Telmo Flor o convidou para assinar uma coluna no Correio do Povo. Inicialmente aos domingos, a coisa cresceu e hoje ela é publicada também às quartas-feiras. Juremir ainda faz participações na Rádio Guaíba, o que o levou a recusar ainda outras ofertas, como a de entrar diariamente no programa de Felipe Vieira, da Rádio Band AM, portanto concorrente da Caldas Júnior. "Eu gosto é de fazer opinião, é só o que me interessa hoje no Jornalismo", conta ele. Hoje, além das colunas no Correio, ainda faz um comentário, também às quartas, no SBT Rio Grande, jornalístico da TVS, e participa de dois programas da UNITV, canal universitário de Porto Alegre, produzidos pela Famecos. Juremir tem ainda um lado literário: faz traduções e escreve romances, entre eles estão "Anjos da Perdição" e a coleção "Mitomanias", ambos da Editora Sulina. "Mas infelizmente ainda não consigo viver disso", lamenta.


Polêmicas sustentáveis


O jornalista é conhecido por suas colocações polêmicas, mas disse que isso só ocorre porque ele tem opiniões. "As idéias de todo mundo são discutíveis. A diferença em relação a mim é que normalmente me posiciono em relação aos mitos, aos intocáveis, ao "Olimpo da mídia"." Ele cita como exemplo Chico Buarque: "É um cantor, compositor maravilhoso. Um gênio! Tá bom assim, já fez demais pela humanidade, não precisa ser bom em tudo. Os romances dele são pífios. Imagino que ele fica em casa entediado de já ser tão bom em música e resolve fazer outra coisa, que ele não faz bem".


Mas Juremir não se considera o que ele chama de "espírito negativista", que só vê a parte ruim. Ele defende que tudo tem vários lados, mas não se exime de criticar o que não está bom. "O Jornalismo sempre teve essa vertente de críticos, faz parte do jogo de opinião. Pior são os profissionais pagos para opinar que ficam em cima do muro", brinca, acrescentando que conflitos famosos, como aquele com Verissimo, ajudaram a criar sua imagem de polemista. Mas sem o tom pejorativo, de quem faz polêmica gratuita: "Não me vejo assim, todas as polêmicas em que me envolvi são perfeitamente sustentáveis".


O próprio Juremir, no entanto, admite que se tornou um daqueles personagens que ou se ama ou se odeia. Atribui isso ao fato de usar da ironia para criticar, para desconstruir clichês da sociedade. "Geralmente, quem é atacado me odeia. Me chamam de invejoso, ressentido, exibicionista. A esquerda diz que eu sou de direita e a direita que eu sou de esquerda. Mas na verdade sou muito pouco ideológico", se diverte. Para ele, escrever é um exercício de estilo, e se considera um "estilista". O importante não é tanto o conteúdo, mas criar uma frase que fique bonita, engraçada. "Ao contrário do humor, no qual quem é citado ri junto ao seu algoz, na ironia, ele se sente imediatamente ofendido. Ela não tem poder sedativo, é crua, e eu a utilizo para criticar o poder cultural."


O lado afável


Já no trato direto com as pessoas, inclusive as que critica em textos, ele se considera muito afável. É calmo, evita discussões e não se importa de ser criticado. Chega a dizer que esse é seu maior defeito: "Não consigo ser rancoroso, gostaria de odiar algumas pessoas, de não me relacionar com quem tenha me feito mal, sido mesquinho comigo. Mas eu esqueço e aceito o menor sinal de reconciliação". Explica que às vezes a pessoa comete o mesmo erro e ele se arrepende de ter "caído na cilada outra vez".


Como qualidade, Juremir diz que é muito sentimentalista, procura se entender bem e ajudar todo mundo. O que lhe traz alguns inconvenientes, como pessoas que o procuram para pedir dinheiro e até, caixão para enterro. "Eu sou piegas, quando eles aparecem eu acho que tenho que colaborar, mas tô tentando parar um pouco com isso."


Juremir vive com sua mulher, a professora da rede municipal Ana Cláudia, com quem é casado há 15 anos. Nas horas de folga, além de ficar com a esposa, gosta de assistir à televisão - uma programação variada, que vai de novela das 8h a telejornais franceses -, ir ao cinema, jogar futebol, ler e, principalmente, viajar. Sua preferência na literatura é pelos autores franceses, mas também admira os romancistas gaúchos, como João Gilberto Noll e Luiz Antonio de Assis Brasil, e os cronistas, como David Croimba, Martha Medeiros, o próprio Verissimo, e Diogo Mainardi, com quem se identifica, "não no conteúdo, mas no estilo". Seus projetos são lançar um novo livro, "Getúlio", editado pela Record, que chega ao mercado em 24 de agosto, data que marca os 50 anos da morte de Getúlio Vargas, e escrever mais. "Se possível coisas mais generosas, porque é melhor escrever coisas que deixem as pessoas felizes do que coisas que as aborreçam. Talvez eu até deixe de ser polemista", ameaça.

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