Luciana Kraemer: Sangue de repórter

Dedicada à vida acadêmica, Luciana Kraemer fala da paixão pela reportagem e das outras experiências profissionais

Por Márcia Farias
Desde o tempo do colégio, ela pensava em fazer duas coisas: escrever e atuar com direitos e causas sociais. Conseguiu. Hoje, Luciana Kraemer é professora do curso de Jornalismo em duas instituições e diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Logo no começo da conversa, faz diversas perguntas, indagações e observações. Curiosa, não esconde o velho tino de uma repórter que atuou por quase 15 anos no Grupo RBS. Poucos minutos são suficientes para perceber que Lú, como é chamada pelos amigos, é apaixonada por contar fatos e que, hoje dedicada exclusivamente à vida acadêmica, sente falta de ouvir e transmitir histórias.
O encontro é acompanhado atentamente pela filha mais velha, Nina, de 7 anos, a quem beija e abraça com frequência. Carinhosa, a jornalista se divide em lembrar sua trajetória e não desviar atenção da pequena, e logo avisa: "Vamos aproveitar, porque logo chega um furacão chamado Dora". A brincadeira faz referência à filha mais nova, Dora, de 2 anos. A prole é fruto do casamento de oito anos com o diretor comercial Fernando Alano, para quem Lú derrete-se: "Sou superfã dele. É um cara que celebra muito a vida, o nosso relacionamento, as filhas, o trabalho. É alguém que vibra muito." Resumir a família? "É a realização de um sonho."
A filha mais velha do médico Raul e da bacharel em Direito Zulma Dagmar tem diversas lembranças da infância. Entre acampamentos, pescarias e praias, as recordações sempre remetem às coisas mais simples. "Parecíamos estar mais perto das coisas que não precisam ser compradas", reflete. Atualmente, além de todos os programas familiares, livros de grandes reportagens, black music e viagens também a animam bastante.
Considerando a exigência como o seu pior defeito mas sua principal qualidade, ela não se imagina em outra profissão: "Ou eu seria jornalista, ou professora de Jornalismo", brinca. Para se autodefinir, Lú é enfática: "Sou a mãe da Nina e da Dora, e isso me resume".
A escolha pelo Jornalismo
A certeza de ser jornalista teve uma inspiração chamada Maria do Carmo Bueno, na época, apresentadora do Jornal do Almoço (hoje, à frente do programa Guaíba Revista, da Record RS). "A entrevista era um instrumento muito forte dentro do Jornalismo. A gente se sentia muito envolvido por um bom papo e ela fazia isso como ninguém." Além disso, durante a adolescência, Lú era levada pela mãe à Assembleia Legislativa para assistir "performances maravilhosas de alguns políticos, em plena era de redemocratização". Todo este movimento histórico foi acompanhado pela mídia e fez com que ela o vivesse bem de perto. "Acompanhávamos tudo pela imprensa", lembra.
A admiração por Maria do Carmo, o dom de ouvir e contar histórias e a proximidade com situações políticas e sociais traçaram nela uma escolha natural pelo Jornalismo. Por outro lado, a televisão era algo muito distante das suas preferências, pois se considerava tímida para o vídeo e sempre achou que seria repórter de jornal impresso.
TV, aí vou eu
A primeira experiência após a formação não foi em impresso, nem em TV. Em 1992, Luciana iniciou como assessora de imprensa, atendendo ao primeiro policial militar a candidatar-se a um cargo público, o vereador José Gomes (PT). A função estava longe do que ela pensava, mas a causa era familiar: lutar por algum direito da sociedade. "Claro que queríamos mostrar um outro lado de policial, especialmente por ele ser de esquerda, mas o principal desafio era lutar por segurança pública mais qualificada", explica, salientando que foi "uma grande experiência".
Não demorou para perceber que, apesar do aprendizado, sua vocação ainda estava por vir. Sem qualquer ambição, Lú enviou currículo para RBS TV de Pelotas, onde morava, e foi chamada para cobrir férias na reportagem. Um mês e meio de experiência, o conhecimento de que a TVCOM estava iniciando atividades e "uma cara de pau sem tamanho" foram os ingredientes necessários para ligar para Alice Urbim. Apesar do espanto, a diretora aceitou receber Luciana com seus vídeos em Porto Alegre. Admirada com a coragem da novata, Alice deu a chance que Luciana precisava: dividir a previsão do tempo com Ana Luiza Engel.
Alcance nacional
Não satisfeita e ficar com uma função apenas, a jornalista passou a pedir para fazer reportagens no turno inverso. A primeira oportunidade no Jornal do Almoço foi apenas mais uma chance pois, depois dessa, tornou-se repórter de Cultura ao lado de Regina Lima na atração. "Era uma época muito boa. Tínhamos muitos shows internacionais vindo para o Estado", lembra, contando também que foi para a Venezuela entrevistar ninguém menos do que o tenor Luciano Pavarotti. Ainda teve Roberto Carlos, Fito Paez, entre outras celebridades culturais.
Quase dois anos foi o tempo para chegar à decisão de ir para o hard news - expressão que designa uma linha editorial especializada em notícias e coberturas mais complexas - ou para "o buraco de rua", como chama. Veio o convite de produzir para o Jornal do Globo, apresentado ainda por Lilian Witte Fibe, alguém que, segundo Lú, gostava de matérias mais consistentes, especialmente ligadas à política e economia. Foi o primeiro passo para tornar-se Repórter de Rede, cargo que permitia produzir matérias para o Jornal Nacional, o Bom Dia Brasil, o Jornal Hoje, entre outras atrações globais.
Vida acadêmica
Ela acredita que reportagem é um trabalho muito intenso, que resulta em tensão e uma carga muito pesada, o que acaba dificultando a dedicação a outras atividades, como os estudos, por exemplo. Para não perder o hábito de se especializar, cursou Mestrado em Ciências Sociais, o que a deixou apta a lecionar em faculdades. "Na reportagem, a gente escuta muito mais do que fala e, na sala de aula, precisamos falar mais. Poder estudar, pensar e refletir novos temas sempre foi o que mais mexeu comigo. Ainda me sinto muito mais aluna", analisa.
O convite para lecionar no IPA chegou tão logo o término do Mestrado e, não demorou, veio o da Unisinos. A rotina passou a ser mais frenética do que nunca. Trabalhava na RBS no turno da manhã (que se inicia às 5h30), tinha a Nina ainda bebê e dava aulas à noite. Não bastasse, veio a segunda gravidez. A gestação da filha mais velha já havia sido delicada, ou seja, nada de correr riscos dessa vez. Como? Chegara o momento da escolha: permanecia na TV ou investia na carreira universitária. "Foi uma decisão muito pautada pela saúde. Pensei muito, com bastante tempo, foi uma decisão doída, difícil, mas quando saí estava convicta", garante.
Depois de 14 anos de Grupo RBS - sendo 10 dedicados à Globo - , a televisão perdeu uma repórter consolidada, mas a academia ganhou uma professora exclusivamente dedicada a ensinar. "Acompanhar as novas gerações, perceber que cada aluno tem sua maneira de aprender, vê-los seguindo suas carreiras e se tornando meus colegas. Tudo isso me enche de orgulho."
Como já era de se esperar, a jornalista não ficaria muito tempo com apenas uma atividade. Diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), ela foi convidada para integrar a entidade a convite de Giovanni Grizotti. Honrada, Lú pensou que o tipo de reportagem produzida pelo colega não era o que ela se identificava, mas ouviu dele que "Jornalismo investigativo é a prática de pesquisar um assunto de forma mais completa". O argumento a convenceu e, hoje, o discurso de Luciana sobre o tema é outro: "Tudo pode ser investigado. Até uma matéria esportiva pode ter técnicas do Jornalismo investigativo".
Clarice, alguém especial
O ano era 1998 e o veículo era o Jornal do Almoço. Luciana produziu uma matéria com uma menina chamada Clarice que tinha uma capacidade muito grande de contar histórias, mas com algumas dificuldades motoras e uma saúde frágil. Quatro anos depois da reportagem veicular também no Jornal Hoje, ela recebeu uma ligação da mãe de Clarice. Adorando o retorno, a primeira pergunta foi como a filha estava e a resposta chocou: "A Clarice partiu." Passado o impacto, dona Neidi prosseguiu contando que ela e o marido haviam encontrado uma obra-prima após seu falecimento: a menina tinha deixado três livros escritos, e eles resolveram publicá-los.
A ligação era um pedido para uma segunda matéria, pois acreditavam que Clarice gostaria disso, caso ainda estivesse viva. Luciana não pensou duas vezes, mas confessou que foi difícil retornar ao quarto dela, deixado exatamente como era quando da primeira reportagem. A construção foi feita de trás para frente e, só ao final, a repórter contava que Clarice havia falecido. "Era uma história de vida e não de morte", explica.
O resultado da história não poderia ser outro: a produção foi reconhecida com um Prêmio ARI de Jornalismo. Na entrega, Lú convidou dona Neidi e o marido e, antes dela subir ao palco, eles lhe presentearam com um terço que a menina usava. "Guardo comigo até hoje. Clarice está sempre comigo", afirma, visivelmente emocionada. E completa: "As matérias mais especiais são aquelas que permitem conhecer pessoas que fazem a diferença. Assim, é sempre melhor."
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