Paulo César Teixeira: Com vocês, Foguinho

Paulo César Teixeira é um cara pacato, que reserva todos os seus dons de comunicação para os textos que escreve com prazer

Paulo César Teixeira | Divulgação
Por Márcia Christofoli
A sala de casa não é feita de sofá, televisão e demais aparatos comuns nesse ambiente. Paulo César Teixeira, o Foguinho, tem, no máximo, uma poltrona para receber visitas. No mais, o cômodo é preenchido com mesa de escritório, computador e duas estantes com livros e revistas. O cenário talvez possa ser explicado por uma frase do jornalista formado pela Ufrgs, em 1980: "Sim, me considero solitário e gosto muito disso".
Para explicar a escolha profissional, neste caso, vale a máxima "filho de peixe, peixinho é". O pai, Luiz Osório Teixeira, o Barão, editou o jornal independente Kronika por mais de 30 anos em Porto Alegre, fechando a última edição, em 2008, poucos dias antes de falecer. O irmão mais velho, Álvaro Luiz, também tem o mesmo ofício. Já a mais nova, Cláudia, é professora aposentada de alunos especiais, tal qual a mãe do trio, Léa Teixeira, que lecionou Português. Como se não bastasse, a filha Luisa, de 22 anos, que nasceu em São Paulo e mora com ele hoje em Porto Alegre, não fugiu da Comunicação e se formou em Publicidade.
Além da Fabico, Foguinho ainda graduou-se em Filosofia pela mesma federal, cinco anos depois. Mas o destino foi mesmo Comunicação - e lá se vão quase 40 anos de jornalismo. Apesar de o pontapé inicial ter acontecido em rádio, tendo atuado na Caiçara e na Gaúcha, Paulo César consolidou a carreira no meio impresso. Íntimo de uma boa escrita, passa horas digitando, em meio a textos, poesias e reportagens, entre outras produções. E sobre a rotina, confessa: "Gosto de escrever no silêncio, o que pode parecer estranho para quem passou tantos anos fazendo isso no meio de redações cheias de pessoas falando ao mesmo tempo, ao telefone, umas com as outras".
Andanças, parte 1
Considerando a característica de ser solitário, como ele mesmo se diz, não surpreende saber que, desde 2001, decidiu seguir carreira solo e passou a atuar como freelancer em produção de conteúdo de diversos formatos - atendeu a clientes como Gerdau, Unisinos, Fórum Social Mundial, Ufrgs e Paquetá, entre outros. Não sem antes passar por redações de jornais em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. Por aqui, os trabalhos foram no Diário do Sul e na Veja RS, a chamada Vejinha.
Fora da capital gaúcha, Paulo César teve a oportunidade de escrever para Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, Época, Exame, Carta Capital e IstoÉ. Nessa última, onde permaneceu por sete anos, atuou como redator, repórter, editor-assistente, subeditor e, finalmente, editor, tanto na sede paulista quanto na carioca. É dessa experiência que guarda diversas lembranças carinhosas. Para ele, viver na terra da garoa, com sua dureza e exigência de profissionalismo, desfez vaidades e ainda permitiu que exercesse de modo pleno o ofício de repórter como contador de histórias, que é o que mais gosta de fazer.
Algumas delas, ele diz, propiciaram colocar holofotes sobre a vida de personagens que, embora desconhecidos do grande público, puderam ser tratados como protagonistas. "São casos como os dos favelados, que construíram casas em cima do lixão de Olinda; da menina órfã, que se jogou da escadaria da antiga Febem em São Paulo; ou dos mendigos/andarilhos despachados de uma cidade para outra do interior paulista, como estorvo dentro de uma Kombi", recorda.
Andanças, parte 2
Ao se dizer generalista, como acredita que todo jornalista deveria ser, explica que nunca teve preferência por uma ou outra editoria, mas cobrir a Olimpíada de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996, teve seu valor. "Não era repórter de Esportes, mas me confiaram essa experiência e foi incrível", admite.
É também do tempo da IstoÉ que gosta de lembrar de quando foi diretor editorial do projeto "O Brasileiro do Século", em 1999, que reuniu 12 fascículos com biografias das 20 mais importantes personalidades do País no século XX. "Foi uma honra. O resultado ficou espetacular", orgulha-se, folheando com o maior cuidado o único exemplar que lhe restou.
Escrever para a revista Aplauso também foi algo marcante, tanto que duas matérias lhe renderam o Prêmio ARI de Reportagem, concedido pela Associação Riograndense de Imprensa. Em 2005 foi consagrado com "Um certo Erico Verissimo" e, três anos depois, foi "Rua da Margem", que descrevia o passado e o presente do bairro Cidade Baixa e que lhe rendeu a distinção novamente. "Essas são oportunidades que marcam a vida de qualquer jornalista, não há como não se sentir realizado com elas", reflete, conferindo os certificados emoldurados na parede.
Contador de histórias
Escrever livros é uma das atividades que mais lhe dá prazer e que quer continuar realizando cada vez mais e em um futuro não muito distante. O ofício pode não ser mais uma novidade, apesar de sempre desafiador, para quem assinou três títulos - todos editados pela Libretos -, mas é o que, definitivamente, faz os olhos do jornalista brilharem.
A primeira obra que levou a assinatura de Paulo César foi "Darcy Alves - Vida nas Cordas do Violão", uma biografia do violinista que foi parceiro de Lupicínio Rodrigues, publicada em 2010. Dois anos depois, veio "Esquina Maldita", retratando o gueto no encontro das ruas Osvaldo Aranha e Sarmento Leite, famoso nos anos 1960 e 1970 por reunir ativistas políticos, artistas, universitários e jornalistas. O mais recente foi lançado no ano passado: "Nega Lu - Uma Dama de Barba Malfeita", biografia do homossexual negro Luiz Airton Faria Bastos. "Todos foram especiais escrever, mas conviver com essa personagem foi muito bom, especialmente por ela ter conquistado mudanças sociais e comportamentais na década de 1990, que só foram consolidadas mais recentemente", explica.
Pacato, mas não parado
Solitário e boêmio. Essas características podem parecer contraditórias, mas é que Paulo César se enxerga assim. A noite porto-alegrense tem a sua companhia diariamente, mas não para fazer folia, paquerar ou afogar alguma mágoa. O que ele gosta mesmo é de sentar junto a um balcão, pedir sua bebida e ficar observando toda a movimentação e os estereótipos que passam na sua frente.
Durante o dia, porém, é um cara bastante pacato, que gosta de ter a liberdade de ajustar seus horários conforme a demanda da agenda. "Quando posso, gosto de dormir até tarde. A hora em que me sinto mais produtivo é o fim do dia, quando faço meu chimarrão e sinto que tenho mais fôlego", detalha. Por questões de saúde, começou a frequentar a academia, mas confessa que não é apaixonado por puxar ferros. A atividade física que ganhou espaço na sua vida é pedalar - começou com as bicicletas disponíveis pelas ruas de Porto Alegre até que, poucos meses atrás, decidiu adquirir sua própria magrela.
Ele não sabe cozinhar  nem gosta, por isso, é um hábito almoçar pelas redondezas da rua Demétrio Ribeiro, no Centro, onde mora, ou  na casa da mãe, no bairro Menino Deus. Colorado convicto, ir aos jogos no Estádio Beira-Rio, onde mantém uma cadeira em seu nome, também é um dos lazeres preferidos. "Sou daqueles que já conhece até as pessoas que sentam em volta, pois são sempre as mesmas", brinca.
"Sou o Foguinho"
Para relaxar nos momentos de folga, rock é um dos estilos musicais que mais agrada o ouvido do jornalista e nesse são destacados Lou Reed e Tom Waits. Sem falar que acompanhará a filha no show dos Rolling Stones, marcado para março, em Porto Alegre. Para assistir na TV, como não poderia ser diferente, programas de esportes e notícias sempre caem bem.
Sempre teve um gosto eclético para a leitura. Leu muito na juventude, principalmente clássicos - Dostoiéviski, Kafka, Borges, como resume. Hoje, o ritmo é menor, mas lembra que o último que o marcou foi "Strange Fruit - Billie Holiday e a biografia de uma canção", de  David Margolick. Segundo o jornalista, a obra é o perfil daquela que é considerada a primeira canção de protesto da música popular. "Strange Fruit fala dos negros que amanheciam enforcados em árvores, no Sul dos Estados Unidos, na primeira metade do século XX. Isso me interessou", relata.
Parceira de trabalho há mais de uma década, a fotógrafa Tânia Meinerz se diz fã dos trabalhos dele. "Paulo sabe fazer títulos curtos, certeiros e, às vezes, lindamente metafóricos", elogia. Mais do que isso, ratifica o que o próprio contou na entrevista: "Com seu jeito tímido, meu amigo tem o costume de caminhar pelas ruas e bares da Cidade Baixa, como se estivesse a armazenar essa experiência para contar aos seus leitores".
Se tiver que citar uma qualidade e um defeito, ele brinca com as palavras persistência e teimosia, "que, afinal, talvez sejam duas facetas de um só atributo". Até os 20 e poucos anos, tinha cabelo cor de fogo, o que resultou no apelido dado na época. E na simplicidade que lhe é peculiar, assim se define: "Sou o Foguinho. Esse resumo é adequado".

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