A importância do tal 'ócio criativo'

Por Elis Radmann

Cada vez mais temos menos tempo e mais coisas para fazer. Uma correria sem fim e até soa estranho quando alguém defende o ócio. O conceito diz que ócio é um tempo de descanso, cessação do trabalho, folga, repouso, quietação, vagar. Na prática, o conceito está nos dizendo que temos que ter uma mudança de rotina, fazer algo diferente.

Nesse debate reside a grande reflexão em torno do ócio criativo, que é uma resposta, uma saída ou até uma forma de fuga da rotina e, principalmente, uma capacidade de relacionamento com a tecnologia.

Estudos realizados pelo IPO - Instituto Pesquisas de Opinião indicam que o gaúcho passa, em média, três horas na internet, em especial, navegando nas redes sociais. Se calcularmos esse tempo, em uma semana estamos falando de 21 horas e, em um mês, representa uma média de 84 horas de envolvimento com a internet e com as redes sociais.

Mas vamos imaginar um dia normal. O dia tem apenas 24 horas e durante esse período temos que dormir, fazer higiene, temos que nos locomover no trânsito, temos que trabalhar ou estudar, temos responsabilidades e problemas com as pessoas que vivemos e temos o tempo gasto nas redes sociais.

Ufa, temos a sensação de que o tempo passa voando e que não temos tempo para nada. E não temos mesmo!

Voltando ao conceito simplista de ócio criativo, a ideia é administrarmos o tempo. Termos um tempo para nós, ter um tempo em família, ter um tempo com as pessoas que gostamos. Significa desligar o smartphone de todos adultos e o tablet das crianças, escutar uma música, tomar um chimarrão, dividir o preparo do jantar ou ter uma relação afetiva.

Pense em um momento de contemplação do céu, onde explicamos para as crianças o que aprendemos sobre as estrelas ou sobre a lua. O momento em que cuidamos de flores ou o momento em que paramos para ler ou debater sobre um livro. E mais do que isso, o momento em que trocamos ideias sobre o presente e sonhamos com o futuro. E o momento que discutimos a relação ou que criamos um hábito de ouvir o outro.

O que estou dizendo é que temos que gerenciar o tempo, e gerenciar o tempo significa diminuir a influência dos smartphones e das redes sociais em nossas vidas e na relação com a nossa família. Significa ter uma disciplina sobre o tempo, ter um planejamento do tempo, e ter o ócio criativo como parte de uma estratégia para que a tecnologia não domine nossa vida, nossos valores e nossos sonhos.

Em um debate mais avançado, o ócio criativo significa trabalhar com aprendizado constante e buscando momentos de bem-estar e de lazer. Em algumas atividades profissionais dá para fazer a integração destas três ações, em outras não!

Quanto mais intelectualizado o trabalho, maior a capacidade de haver o ócio criativo de forma integrada e esta capacidade diminui quando o trabalho é mais braçal. Mas como a tecnologia vem adentrando em nossas vidas, em todas as atividades temos que ter a seguinte lógica: o tempo da atividade/trabalho, o tempo do penso/da busca pelo conhecimento e o tempo da diversão, do lazer.

A grande reflexão que devemos fazer, de forma permanente, diz respeito ao nosso posicionamento em relação à tecnologia: vamos ficar passivos ao que a tecnologia nos oferece, sendo objetos desse processo, ou vamos nos posicionar como sujeitos e planejar o papel que a tecnologia vai ter em nossas vidas e o tempo que vamos gastar com o ócio criativo, vivendo com as pessoas que amamos?

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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