Se eles não tiverem espaços, se criam?

Por Iraguassu Farias, para Coletiva.net

Era pra ser um texto leve de Carnaval. Um alalaô. Mas a meningite, que achávamos erradicada nos anos 80, fez uma vítima num hospital de periferia de São Bernardo há alguns dias. Inevitável que desde então a mídia não paute outro assunto - exceto pelas novas proezas do nosso presidente da República. A propósito, se até o Queiroz, que é vendedor de automóvel e nas horas vagas laranja, foi para o Albert Einstein, porque o neto não?

Aqui, um corte: fizeram-me avô há pouco. Não há sensação melhor. Também inevitável tentar, minimamente, imaginar a dor da perda do filho do filho (Pai, afasta de mim este cálice).

Voltando à mídia, fiquei antevendo a cobertura e seus atos, desde o primeiro - libera ou não libera, até os aparatos de guerra a transportar e guarnecer o larápio. Mas uma reflexão eu quis fazer: até que ponto a mídia fabrica ou deixa de fabricar seus arquétipos?

Roberto Marinho dizia que a Globo não era grande pelo que mostrava, mas pelo que não noticiava. E ele estava certo, eu acho. O problema é quando a mídia, na ânsia do dinheiro, do poder ou da sobrevivência através da audiência, serve à causa.

Foi a mídia quem abriu a tampa da cloaca. Foi ela quem fabricou e deu vida e voz a seres tão nojentos e fétidos.

Acaso não tinham certeza de que não seria mais do que nunca foi? E tinham de insistir no engodo? No passado, o caricato era um Tiririca, um cacique Juruna, um Caiado em seu cavalo branco ou Dr. Enéas e seu bordão. Hoje, ao caricato juntou-se o insano, o desumano, o truculento e - pior, o limitado. Sim, porque tem de ter uma capacidade mínima pra conduzir as coisas.

Incensados, impulsionados e repercutidos, vimos o tacanho, o rasteiro, o sequelado tomar de assalto este País, e diariamente nos fazer assistir, ouvir e ler tanta asneira. A pergunta que se deve fazer é: se a mídia não desse "palanque" e voz a esses descerebrados, as coisas poderiam ser diferentes?

O País precisa resolver problemas urgentes, a imprensa deveria ser a caixa de ressonância destes anseios e o canal de retorno dos governantes para com seus governados, numa espécie de grande audiência pública. Mas fica ocupadíssima com o que pensa zero três, porque sabe que vai gerar audiência.

A raiva é filha do medo e mãe da covardia. Precisa melhor definição?

Esta gente que foi guindada ao poder no País segue pautando a imprensa com suas diatribes. Mas o quarto poder está atrapalhado. Bem atrapalhado. Outrora, fez presidentes e descartou-os quando quis. Lembrando um apeado.... fá-lo-á novamente? Até quando resistirá?

Quanto aos descerebrados (e desalmados), eu espero sinceramente que, quando se forem, deixem poucas lembranças. Que voltem para o esgoto de onde saíram e levem junto os astrólogos.

(Nunca pensei que concordaria com Reynaldo de Azevedo. Ele tem sido brilhante).

Iraguassu Farias é diretor Comercial de Coletiva.net.

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