Somos um produto autêntico. E não um genérico das redes sociais

Por Luiz Artur Ferraretto, para Coletiva.net

Redes sociais amparam-se em uma lógica de afetividades e de preferências, aproximando e afastando pessoas. É o que ocorre também em emissoras de rádio dedicadas ao entretenimento. O sujeito ouve tal estação em função de gostar deste ou daquele conteúdo. Pode ser um estilo musical. Pode ser um comunicador em si. Há forte identificação no processo, aflorando a ideia de que o ouvinte não está sozinho, de que faz parte de um grupo, de que está na onda desta ou daquela tendência. É, cabe repetir, a lógica das redes sociais, tanto das mais abertas, como o Facebook, quanto das mais fechadas, caso do WhatsApp. Jornalismo, no entanto, vive de outra lógica. E nisso, nós - gestores, profissionais, pesquisadores, estudantes... - temos errado em nome de uma falsa democracia mais relacionada com uma atitude marqueteira do que com a real valorização da cidadania em si.

Nas redes sociais, importa ser interessante. A curiosidade sobre o bizarro, o estapafúrdio, a fofoca, a mentira ou o sensacionalismo destaca-se muito mais do que o valor de algo como notícia em si. Não se trata de sobrevalorizar as "hard news" - o relevante, denso e complexo, próprio dos fatos, por exemplo, do campo da economia e da política - em relação às "soft news" - informações mais leves e amenas relacionadas, não raro, ao mundo do espetáculo. Notícia é notícia desde que o fato, a opinião ou o serviço relatados tenham se adequado a critérios jornalísticos como atualidade, proeminência, proximidade e universalidade. A ética jornalística encarrega-se de afastar justamente o bizarro, o estapafúrdio, a fofoca, a mentira ou o sensacionalismo. Ou deveria.

Aprendemos que a internet e as redes sociais eram poderosos instrumentos a favor do jornalismo em geral e do de rádio em particular. Agora, precisamos entender que tudo concorre com tudo e que, portanto, por exemplo, o Facebook disputa público com a emissora. O mesmo vale para Instagram, LinkedIn, Twitter e WhatsApp. E atenção para esse último. Enquanto os demais conformam redes relativamente abertas, o Whats forma grupos fechados sobre os quais nenhum veículo de comunicação tem influência direta. Se falamos de jornalismo, todas essas redes sociais disputam também credibilidade com a mídia dita tradicional. Como se pode constatar nas últimas eleições, o jornalismo está perdendo essa briga em vários segmentos de público.

Radiojornalismo é feito com base no fato em si e em sua repercussão. Não contribui em nada para o processo reduzir esse último aspecto à colocação de opiniões rasas de ouvintes filtradas pela própria emissora. Quando começou a ser noticiada a reforma da previdência, muitas rádios reduziram o tema a manifestações oficiais ao microfone e do público em redes sociais. Repercussão deve ser feita com especialistas, lideranças políticas de oposição e situação e representantes de empresários e trabalhadores. A alegação de que esse nível de profundidade cansa o ouvinte abre espaço para a própria derrota do jornalismo frente à abordagem leiga e boba das redes sociais.

Há espaço para a valorização do jornalismo. Nas redes mais abertas, boa parte do conteúdo segue proveniente da imprensa. Ao contrário, no mundo encoberto do WhatsApp, é alta a proliferação de "fakes", que se espalham, a partir dali, para a internet como um todo. Verdadeiro ou falso, o que bomba nesses espaços é definido por eles próprios. Parece o resultado de uma pesquisa de opinião, mas, em realidade, se aproxima bem mais das facilmente manipuláveis enquetes, algo que as emissoras sérias já haviam começado a banir de suas programações na década de 1990. E nós estamos caindo nesse conto do vigário e amplificando muita coisa que por ali circula.

O jornalismo, como exercício narrativo de múltiplas facetas, deveria ser o produto autêntico. Não pode ser o espaço de reverberação de seus genéricos: dos blogueiros sem rigor informativo aos "youtubers" cheios de piadas prontas e aéticas, passando por fofocas de celebridades momentâneas das redes sociais. Não significa desconsiderar o que vai pelas redes, mas aplicar critérios jornalísticos na seleção do noticiado com base nesses espaços. É claro que tudo isso passa também por investir em jornalistas, dosando a experiência e inovação, algo muitas vezes esquecido por quem prefere apostar na tecnologia, desleixando da conservação e formação de recursos humanos de qualidade.

A nossa lógica é a da notícia. E isso incomoda. Não raro redes sociais parecem uma paródia atroz daquele poema de Carlos Drummond de Andrade, aquele que, talvez, em versão de hoje fosse: "João odiava Teresa que odiava Raimundo/ que odiava Maria que odiava Joaquim que odiava Lili/ que não odiava ninguém./ João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história". É isso mesmo. Jornalismo não é feito para grupos de afetividades. Somos o J. Pinto Fernandes do poema, os que não devem entrar na história, mas apenas narrar o acontecido e o dito a respeito. Produzimos conteúdo para quem concorda e para quem não concorda, para quem é beneficiado pela divulgação de algo e para quem é prejudicado. Isso não tem nada a ver com "likes" em redes sociais. Tem relação direta com o que se convencionou chamar de notícia.

Luiz Ferraretto é professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

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