O cemitério dos dados

Por Sergio Baldassari

Final de ano é sempre muito revelador, é o momento que paramos para refletir sobre nossas conquistas, novas metas e pontos de melhoria. A reta final de 2018 não foi diferente, durante o almoço de Natal em família compartilhamos de forma muito transparente os desafios enfrentados durante o ano e o que esperávamos de 2019. Nesse momento, uma declaração me chamou a atenção, uma das pessoas presentes na mesa disse que queria aprender a combinar e usar todos os acessórios disponíveis no seu closet. Ela contou que tem diversas opções de cachecóis, colares, brincos e pulseiras, mas simplesmente não costuma usá-los ou usa sempre os mesmos e mais antigos pelo fato de não se sentir segura ao combinar os novos modelos com o seu estilo, além disso, ela achava estranho o fato de que no manequim o produto sempre parece mais bonito e estiloso, mas, depois de comprá-lo, a nova aquisição fica simplesmente parada no guarda-roupa.

Os dias foram se passando, mas continuei digerindo aquela revelação e percebendo como aquilo de certa forma também representava os desafios de muitos empreendedores, que na busca por acompanhar as melhores práticas do mercado, acabam investindo em alta tecnologia, porém simplesmente não aproveitam de todo o potencial dos recursos adquiridos.

Um ótimo exemplo disso foi a consolidação da tecnologia CRM (Customer Relationship Management) como parte fundamental da estratégia de gestão e crescimento. Embora a ferramenta já faça parte da rotina de grande parte das empresas, o seu impacto nos resultados ainda deixa a desejar devido à falta de integração dos departamentos, aproveitamento das informações coletadas e interesse dos profissionais por explorar profundamente todas as possibilidades da ferramenta como parte crucial das decisões estratégicas.

Mas essa é apenas uma das ferramentas utilizadas atualmente pelo mercado, se formos a fundo e somarmos todos os meios disponíveis para coleta de dados do consumidor, iremos nos deparar com o Big Data. As ferramentas de Big Data são de grande importância na definição de estratégias de marketing, quando combinados com algoritmos, esses dados se transformam em informações relevantes, que, por sua vez, se convertem em resultados para tomadas de decisão em tempo real.

É exatamente nesse ponto que muitas empresas perdem a oportunidade de alavancar seus negócios devido à falta de aproveitamento dos dados coletados e acabam transformando essas ferramentas em um verdadeiro cemitério digital. Segundo um estudo de junho de 2018 do The Boston Consulting Group, apoiado pelo Google, 98% das empresas brasileiras não aproveitam o marketing digital em sua totalidade. De acordo com a pesquisa, uma das principais barreiras para o investimento na evolução do marketing digital está na habilidade e na automação, ou seja, as empresas possuem as ferramentas adequadas para coleta dos dados, mas não conseguem ou não se interessam por se aprofundarem nesses dados e utilizá-los como forma de elaboração de um novo método de trabalho que possibilitará a conquista de novos resultados.

Estudos apontam: empresas que investem em Big Data apresentam resultados até três vezes melhores que os seus concorrentes, mas para conquistar esses resultados é necessário que o Big Data esteja inserido na organização sem privilégios, garantindo dessa forma que todas as unidades possam ganhar com a capacidade de análise de dados bem executada.

Por fim, toda essa reflexão mostra como poucas informações, coletadas em um almoço de Natal, podem superar as barreiras da mesmice e revelar um mundo de possibilidades. E o questionamento que permanece é simples e direto: "O que estamos perdendo no cemitério dos dados?".

Sergio Baldassari é CEO da TRACK.

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