Resiliência, uma palavra mal dita

Por Luisa Oliveira, para Coletiva.net

Resiliência, uma das palavras mais ditas, ouvidas e lidas nos últimos tempos. Está lá, em, praticamente, todas as palestras de empreendedorismo, em quase todos os livros de autoajuda, e em, provavelmente, dois terços de todas as reuniões com os diretores de empresas e/ou agências de propaganda. Mas qual é o significado real desta palavra? Com a ajuda do dicionário, podemos registrar que o sentido é: capacidade de quem se adapta às intempéries, às alterações ou aos infortúnios.

Ok, entendido. Tu lês e pensas "lógico, esta é a chave do sucesso", Afinal, Charles Darwin já dizia na Teoria da Evolução: "Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças". E, com este entendimento, tudo fica lindo, saímos da palestra, da reunião ou ao final de alguma obra, e temos uma missão: sermos resilientes!

Mas é aí, bem aí, neste pensamento, nesta vontade de ser, que tudo começa a dar errado. Isto acontece porque a palavra sofre uma pequena alteração de significado. Tu acreditas que tolerar alguém matando uma ideia tua é ser resiliente. Acreditas que engolir mil sapos por dia é ser resiliente. Acredita que não expor opinião em uma reunião importante é ser resiliente. Acredita, ainda, que pode até ser humilhado, e isso é ser resiliente.

E, pouco a pouco, o uso desta palavra vai, continuamente, sendo colocado de maneira errada no nosso dia a dia. E de repente, já foi. Quase nunca percebemos, mas essa tal de resiliência, no seu mais equivocado significado, mata a nossa criatividade, mata a coragem, mata a inovação, premissas essas tão buscadas, exigidas e, se bem empregadas, tão cruciais para o sucesso - ainda que este último conceito possa ser extremamente relativo.

Porque, acreditem, não estamos agindo como teríamos que agir, não estamos nos adaptando às intempéries, não estamos nos recuperando de problemas ou traumas, nem ao menos nos reinventando. Sabem o que estamos fazendo neste momento? Sentados em uma mesa, na frente de um computador, com mais outras 30 pessoas ao redor, quietas, fazendo mais do mesmo. E as grandes ideias, aquelas que o mercado tanto exige dos publicitários, as grandes evoluções vão ser feitas por pessoas nada resilientes, por pessoas que não se conformam.

Que essa tal, e tão enfiada goela abaixo, resiliência, seja menor do que a nossa inconformidade, coragem, criatividade e vontade de fazer diferente.

Luisa Oliveira é publicitária.

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