Os tios

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"(...) Laçavam de todo o laço, amanuseavam potros,

Fumavam grossos palheiros de bom fumo.

E amavam seus cavalos que rompiam ventos

E bandeavam arroios como um barco ágil."

Apparicio Silva Rillo.

Eles eram tantos que quase não lembro o nome de todos. Meus tios usavam espessos bigodes negros, eram longilíneos e pouco falantes. Rezavam para Santa Bárbara, amavam cavalos e cigarros de palha. Naqueles longos verões, a vida corria mansa como um arroio, mas sempre nos rondava o perigo de um gato-do-mato ou de uma cobra cruzeira. Lembro aqueles tios, sempre atentos e de seu jeito quieto de nos ensinar os segredos do campo.

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Lá, ninguém usava relógios ou calendários. Nos galpões, onde os homens deitavam e acordavam cedo, nunca vi nem uma coisa nem outra. Para os tios, peões e agregados, o dia começava quando o sol aparecia nos lados da Lagoa dos Patos e se infiltrava pelas frestas das paredes de tábuas. E terminava quando o sol caía atrás da renque de eucaliptos, lançando longas sombras pelo campo.

Mesmo nas escuras manhãs do inverno, não era dado a ninguém perder a hora. Antes das seis, o alarido dos galos acordava os cães de guarda e estes, com seus latidos impacientes, despertavam a todos, tanto nos galpões como na casa grande. 

E enquanto as horas e os dias se escoavam, em tudo estava presente o olhar vigilante do meu avô. Ele não ligava para luxos pessoais, mas tinha apreço por seus relógios. Tinha dois: um, o carrilhão de pêndulo Junghans, com quatro cavalos empinados no topo da caixa. Gostávamos de espiá-lo aos sábados, dia de dar a corda da semana, acertar o ponteiro dos minutos e testar as batidas das horas.

Seu outro tesouro era um Patek Philippe em ouro 18k. Uma preciosidade para a época, marcando horas, dias, meses e as fases da lua. Quando a minúscula lua dourada no mostrador de madrepérola mudava de fase, era o sinal para as instruções aos tios, peões e agregados.

Para o avô, os tempos lunares marcavam a vida no campo: Tempo de plantar, tempo de colher. Tempo de tosar, tempo de castrar. Tempo de ensacar arroz, tempo de domar garanhões.

Quando o avô sacava o Patek Philippe de ouro na porta de casa, os tios  se entreolhavam, coçando a cabeça. E resmungavam, entredentes:

"- Lá vem chumbo grosso, peonada."

Entretanto, nos domingos de carreiras, havia folga e risos para todos. Os sacos de sementes, as foices e enxadas ficavam descansando nos galpões. Dia de outras lides - lavar os cavalos, limpar arreios e sacudir a poeira dos pelegos de festa.

E quando o avô retirava o Patek Philippe do bolso do colete, era a hora de tomar o tempo dos parelheiros, prontos para disparar pela cancha reta. E de lembrar que o tempo não para nem perdoa.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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