Para onde vão os impressos (II)

Por José Antonio Vieira da Cunha

A lenta, cruel e inexorável morte do bom e velho jornalismo impresso, tema da coluna anterior, ainda polemiza, pois os amantes deste segmento da comunicação não admitem este que se apresenta como um triste final. Jornais impressos têm uma admirável história de mais de dois séculos, e durante quase todos estes 200 anos foram dominantes inclusive como o principal meio de comunicação de massa. Mas o tempo passa, os costumes envelhecem, a decadência surge; jornal impresso se aproxima do fim, sim, tendo apenas uma sobrevida que pode ser datada para o ano de 2030, no máximo 2040. 

Enquanto isso, tratam, os jornais, de se adequar à realidade e suas exigências. Procuram ficar mais enxutos, mais contidos na circulação, com redações menores... Há uma crise geral de custos, agudizada, como anotei, exatamente com a baixa circulação e o fechamento de títulos, o que reduz o consumo de sua importante matéria prima, o papel, e, consequentemente, eleva seu valor. E o problema adicional, e grave, é que seguem observando estratégias ultrapassadas.

Consumidores de informação com menos de 45 anos se contentam com o que recebem via web, em seus canais preferidos que muitas vezes se resumem a WhatsApp e Facebook. Não leem jornal ou revista, não acompanham noticiário de televisão ou rádio. Ao migrarem do analógico para o digital sem estruturar-se adequadamente, os jornais não dão a devida atenção para esta particularidade e cometem pecados capitais, a começar pelo fato de praticamente ignorar que o digital permite infinitos diálogos e interações. Diálogos e interações que o jornal não oferece enquanto impresso e, no ambiente digital, não sabe explorar.

Jefrey Cole é um respeitado pesquisador de mídia, e no início deste século, quando coordenava o Centro para a Cultura Digital da Microsoft, liderou uma pesquisa cujos dados analisei com alunos de um curso de especialização em comunicação que a Coletiva.net oferecia em 2005. Entre os grandes cenários para o futuro apresentados pela pesquisa, muitos afetavam a informação consumida de forma convencional, pelo meio impresso. O envelhecimento do leitor de jornal ficou evidenciado na parte da pesquisa dirigida aos jovens entre 12 e 24 anos: praticamente nunca leriam jornais, embora pudessem se interessar por revistas; nunca teriam um telefone fixo ou um relógio; acreditavam em fontes desconhecidas, mais do que nos experts; demonstravam pequeno interesse pela fonte original da informação; queriam mover conteúdo livremente de uma mídia para a outra, sem restrições; e queriam ser ouvidos.

Agora me diga: o jornalismo impresso que encontramos entre nós diariamente atende estas motivações? Pois segue cometendo, no analógico e no digital, outro pecado grave: passa mais tempo falando para a elite do que para o cidadão comum. E mais, jornais são tidos como veículos muito mais voltados para os seus próprios interesses comerciais do que para os interesses da sociedade.

Por isso pode-se afirmar que há uma crise generalizada a fustigar a maioria dos jornais gaúchos, sejam diários, trissemanários, semanais, mensais. Com as exceções da regra, não conseguem ter a relevância de idos tempos, e seguem em queda acentuada de circulação, como mostram os indicadores conhecidos. Este quadro mostra a realidade nua e crua:

Gráfico mostra queda na circulação de impressos - Poder 360

Os dados que o IVC (Instituto Verificador de Circulação) levanta são indesmentíveis e constrangedores. Só para ficarmos no primeiro semestre deste ano, 15 dos principais jornais brasileiros registraram queda de circulação: no total, atingiram 433.999 exemplares, uma diminuição de 7,7% frente a dezembro de 2021. (Este número de circulação, sete anos atrás, era quase três vezes maior: 1.335.373 exemplares.) A circulação digital, que vinha num crescendo desde 2018, aumentou apenas 4,4% no período. Agora, os 15 jornais considerados têm em conjunto 1.132.324 assinaturas on-line pagas.

Os números foram analisados pelo portal Poder 360, que ouviu Luciana Moherdaui, jornalista e pesquisadora do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo). Ela vai direto ao ponto ao identificar que o declínio é justificado pelo modelo usado pelos jornais impressos, mesmo sendo eles títulos respeitados e longevos como O Globo e a Folha: "É ultrapassado mesmo quando publicado na rede no mesmo formato, com hierarquia, diagramação e coluna. Não há mais intervalo de publicação, deadline, e o design se tornou obsoleto diante das possibilidades atuais. A lógica é 'aconteceu, está no ar'".

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Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem quatro netos. E-mail para contato: [email protected]

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