Para respirar Brasil

Por José Antônio Vieira da Cunha

Há quatro anos, no segundo turno, votei em branco pela primeira vez. Nem Haddad, representante do PT envolvido em mares de corrupção, nem Bolsonaro, ícone de um prisma ideológico defensor da tortura e da ditadura, entre outros tantos equívocos. Vivemos em um regime presidencialista, em que a figura do governante é dominante. Por isso, desta vez, no primeiro turno, votei em Simone Tebet, certo de que ela, como parlamentar equilibrada e sensata seria a opção capaz de pacificar o país. Não chegou nem perto do segundo turno exatamente porque o país está tremendamente dividido, entre os bolsonaristas, que odeiam o PT e a esquerda em geral, e os lulistas, que execram o bolsonarismo e tudo que estiver à direita do espectro político. 

Agora temos novamente um segundo turno e, colocando um e outro na balança, pesando os prós e contras, entendo que o voto tem de ser em Lula. Ele foi condenado em três instâncias do Judiciário por atos de corrupção. Mas é o que se tem de essencial contra ele, e corrupção é um mal que pode ser extirpado ou minorado, e felizmente a Lava Jato ajudou a resolver boa parte destas distorções. Depois dela, ficou muito mais difícil - mas não impossível, claro - corromper as entranhas do poder como foi feito na Petrobras, tanto por PT como por PP e PMDB, não vamos nos esquecer desta circunstância relevante.

O voto em Bolsonaro é inadmissível, a meu ver, por inúmeras razões, a começar por aquela que me levou a não votar nele em 2018 - um truculento que nega ter havido ditadura militar no Brasil, é a favor da tortura e cita Brilhante Ustra, o maior torturador que o Brasil viu nos anos 60, como seu herói. Eu, que estive numa trincheira contra o golpe militar e tive amigos presos e torturados, sei muito bem como é desumano e cruel um posicionamento como este.

E desumanidade é lamentavelmente uma das marcas do atual presidente da República. Ele debochou dos vitimados pela Covid, chamou a maior pandemia dos últimos anos de uma 'simples gripezinha' e foi até o fim negando a ciência. Primeiro retardou o quanto pôde a aquisição de vacinas, o que, na estimativa de organismos respeitados, significou a morte desnecessária de pelo menos 70 mil (70 mil!) brasileiros. E depois, mesmo tendo de adquirir vacinas contrariado, seguiu se posicionando contra esta forma de imunização, a despeito de todas as manifestações e comprovações da ciência.

O presidente Bolsonaro defende o armamento da população, indiferente ao fato de que isso, comprovadamente, aumenta as taxas de homicídios e, como se viu nos últimos meses, favorece a compra de armas por traficantes e milicianos. Aliás, a milícia, este poder militar paralelo, corrupto e assassino, é admitido por ele como um mal menor, incapaz que ele é de identificar como o Estado é falho na defesa da sociedade a ponto de conviver com uma anomalia deste gênero.

Embora defenda o discurso de combate à corrupção, o que faz Bolsonaro? É comprovadamente executor, junto com seus filhos e ex-esposas, do expediente condenável da rachadinha. No governo, ele, que se elegeu condenando a "velha política", se agarrou a ela com unhas e dentes para defender seus interesses muito particulares, indiferente ao custo que tal adesão provoca na máquina pública.

Não há como não considerar que os ataques insanos de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal são uma das maiores ameaças a nosso sistema democrático, calcado na independência dos poderes. O que ele faz e diz contra ministros do STF é indigno de uma autoridade minimamente respeitável. Ele discorda de decisões do STF ou de alguns de seus ministros? Certo, isto é do jogo democrático, e há meios e formas de se contrapor a isso, o que nunca passa por atacar a honorabilidade de pessoas e de instituições.

Abominável é também a leniência do governo Bolsonaro em relação ao desmatamento da Amazônia, às queimadas indiscriminadas em todo o território nacional e ao garimpo ilegal que polui rios e comprovadamente ameaça a saúde de povos indígenas. A fiscalização do Ibama foi desmoralizada no atual governo, e leis e normas são atropeladas por um governo liderado por ele que decididamente está na contramão do bom senso em relação à questão ambiental. Os dados do desmatamento e do desastre ambiental provocado pelo garimpo estão aí para quem quiser saber, e não são escândalos forjados por ONGs; são todos dados oficiais, de organismos de governos federal e estaduais.

E para encerrar, lembremo-nos de que Bolsonaro repete à exaustação que só aceitará o resultado das urnas caso seja ele o vencedor. É impossível existir comprovação maior de que se tem aí um grande golpista e um péssimo perdedor, que questiona o processo por antecipação. Encerrado este primeiro turno, suas acusações levianas foram demonstradas pelos fatos, com atestados de autenticidade fornecidos por organismos como o TCU e, ora veja, as Forças Armadas.

Por tudo, não há como votar neste falso messias que, aliás, insiste em tentar misturar governo com religião, em uma mescla que só tem péssimos exemplos na História, e há muitos séculos. É, inclusive, mais uma ameaça dele à Constituição que jurou defender mas faz questão de agredir. 

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à Agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo (de Cachoeira do Sul), a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. E tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem quatro netos.

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