Um dia incomum

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Aquele 3 de abril de 2005 não foi um dia comum - eu ingressava no mundo digital, graças à conspiração dos amigos Mario de Almeida e José Vieira da Cunha. Eu estava eufórico por ter uma crônica assinada em Coletiva.net, o melhor portal de comunicação e jornalismo do Rio Grande do Sul. Como escritor bissexto, alimentava a pretensão de imitar mestres como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.

Ou, no mínimo, escrever inspirado nos textos de Mario de Almeida.

Que sempre foi movido por conspirações, engenho e arte. Vontade de motivar e inventar também nunca lhe faltou. Em tempos idos, foi um dos inovadores do teatro amador em Porto Alegre. Fez parte de uma geração única de amantes do teatro - Paulo Jose?, Milton Mattos, Paulo Ce?sar Pere?io, Lillian Lemmertz, Antonio Abujamra, Fernando Peixoto, Ivete Brandelise, Célia Ribeiro que deixaram um legado de talento e ousadia nos palcos gaúchos.

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Um Dia Comum (apud Mario de Almeida)

"Era uma manhã de outono ainda mal começada em Porto Alegre e da janela de meu quarto eu sentia o sol expulsando aos poucos o frio da madrugada. Eu acordara alegre, bem dormido, havia sonhado com Ingrid, a nova vizinha do casarão da esquina da Ramiro Barcelos, loura e linda, distante musa dos guris da zona.

Peguei livros e cadernos, coloquei-os na pasta, dei um beijo na mãe e um abraço no pai que tomava seu café lendo o Correio do Povo, ao lado do rádio Telefunken de 12 válvulas.

Era muito cedo, pois a aula de Religião começava às 7 horas. Defronte a casas da Vasco da Gama, pedras de gelo na calçada mostravam os que ainda dependiam da geladeira Steigleder.

Eu pulava os filetes de água gelada e, tirando o barulho de uma carroça no fim da rua, o resto era silêncio. Subi a Ramiro Barcelos até a Praça Júlio de Castilhos. Enquanto aguardava o bonde, vi o Neves, motorista dos Dreher, polindo o Cadillac rabo de peixe da família.

Eu estava com sorte, chegou logo um bonde Prado, quase vazio. Na plataforma traseira, já estavam os colegas Feijó e o Dieffenthaler, com a mesma cara de desânimo, a caminho da aula de Religião. O Feijó era um raro companheiro no bonde Prado. Quase sempre ia e voltava no Lincoln Continental do pai, alvo de olhares de inveja dos que esperavam o bonde.

Já o Diefenthaler era de uma raça diferente. Andava com um livro debaixo do braço. Adorava ler, ouvir música e seus ídolos eram Emilio Salgari e Beethoven. Era capaz de passar horas falando sobre as nove sinfonias.

A viagem até o Ginásio Rosário durava apenas uns dez minutos, a não ser quando o motorneiro parava à espera de um passageiro atrasado, que chegava ofegante, depois de subir a Santo Antônio ou a Barros Cassal.

As aulas de Religião, às 7 horas da manhã, três vezes por semana, eram uma carga pesada para muitos de nós. Mas gostávamos do professor, o Irmão Roberto, que escrevia poesias nas horas vagas. Mesmo nos dias gelados de agosto, ele andava sem o manto que os maristas usavam no inverno. Alguns colegas mais velhos confidenciavam que era um asceta, que comia e dormia pouco, passando as madrugadas rezando na capela.

Olhando os elegantes casarões que se sucediam na avenida, lembrei da Ingrid tentando adivinhar o perfume que ela usava. Não seria o enjoativo Cashmere Bouquet das minhas tias, mas, com certeza uma essência francesa, sofisticado, que poucas moças usavam. O bonde chegou na Igreja da Conceição. Como sempre, na portaria do Rosário, o irmão Faustino acompanhava com o olhar severo os alunos, esperando para reprimir os retardatários. Entramos na nossa classe no momento exato em que o sino do pátio bateu o primeiro sinal. Começava mais um dia comum.

Eu tinha colegas divertidos. Ao meu lado, o Paolo Giampaoli, de uma família de italianos, que perderam sua fábrica de balas e confeitos incendiada quando da entrada do Brasil na II Guerra. Lembro-me de caminhar entre os destroços da fábrica, na Fernandes Vieira, onde aqui e ali ainda haviam balas e chocolates calcinados. Se comentava que famílias de origem alemã, como os Bromberg e os Von Bock, guardavam sentidas memórias de violências contra suas famílias e propriedades.

Anos depois, quando Getúlio Vargas se suicidou, seria a minha vez de ver de perto multidões enfurecidas pelas ruas.

Em plena Rua da Praia vi móveis sendo jogados do sétimo andar do consulado norte-americano. Pouco depois, uma correria pela Avenida Borges - todos correndo para ver a Rádio Farroupilha ser atacada e saqueada. Lembro bem dos discos de vinil saírem voando por cima do Viaduto, antes do prédio ser incendiado.

Foi um dia incomum, de novos tempos e acontecimentos, que deixavam perplexos aqueles jovens estudantes do Colégio Rosário. E o pai já não estava por perto para explicar o que estava acontecendo."

Texto originalmente publicado em 5/04/2005.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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