Ricardo Duarte: Clique no lance

Ele alia a paixão pelo Internacional à profissão de ser fotógrafo

Ricardo passou mais de duas décadas no Grupo RBS - Crédito: Arquivo Pessoal

Ser fotógrafo exige, além de um olhar diferenciado, conhecimento sobre funções essenciais, como iluminação, abertura de lente e velocidade do obturador. Mais difícil ainda acontecia no tempo das câmeras analógicas. Porém, tudo isto não foi problema para Ricardo Fagundes Duarte. O profissional com mais de duas décadas de mercado aprendeu a lidar com os equipamentos apenas mexendo neles e com dicas de algumas feras - como ele mesmo diz. Ou seja: praticamente um autodidata.

Isto tudo porque a fotografia entrou de mansinho em sua vida. Filho de um administrador que fez carreira na Texaco, e irmão mais novo de outros dois familiares que trabalham com ciências exatas, passou boa parte do tempo acreditando que seria engenheiro. Até chegou a cursar a graduação em Engenharia Mecânica, pois desejava saber mexer em seus carros. Todavia, aos 18 anos, foi no primeiro emprego que começou a mudança de sua trajetória.

Ricardo, que gostaria de trabalhar com rotativas na Zero Hora, acabou sendo contratado como auxiliar de redação - o que, na época, era como a função de um office-boy interno. Ele, aliás, ingressou logo em um período de plantão, no Natal, e desde este tempo entendeu como seria a rotina dali por diante, mesmo sem saber que não sairia mais da área naquele momento. Lá, passou a ter contato com os profissionais de texto, diagramação e foto. Da convivência surgiu a paixão por clicar os momentos e decidiu trancar a faculdade de Engenharia Mecânica e cursar Jornalismo.

De lá para cá, passou a ser auxiliar de arquivo e, posteriormente, de fotografia. Graças a grandes nomes da área, como Fernando Gomes, Valdir Friolin, Ricardo Chaves (Kadão), Genaro Joner, Sílvio Ávila e José Doval, que o auxiliaram e inspiraram, criou coragem para realizar alguns trabalhos esporádicos. Já no final dos anos 90, com mais experiência, foi que começou a trajetória no fotojornalismo: a sucursal do Grupo RBS em Santa Cruz do Sul abrigou a realização do grande desejo de trabalhar na área.

Grandes realizações

A mudança para o Interior, que durou um ano, o proporcionou cancha, afinal, cobria diversas editorias, desde pauta de política até desfiles de moda. Na época, chegou, até mesmo, a cobrir a realização de um bolão - modalidade esportiva que originou o boliche. A ida ao Interior, entretanto, o obrigou a trancar a faculdade - que acabou não retomando. Foi também um período em que chegou a ser citado na revista nacional 'Fotografe Melhor' como uma das promessas da fotografia esportiva.

Após, regressou a Porto Alegre, já no cargo de fotógrafo de Zero Hora. No veículo, conquistou a oportunidade de cobrir de tudo um pouco, inclusive, a editoria que mais gostava: esportes. Nela, conquistou a confiança dos chefes para cobrir grandes eventos, como, por exemplo, os que acontecem fora do Brasil. China e Japão foram alguns destes destinos. O motivo? Clicar os grandes momentos da Olimpíada, em Pequim, além de um episódio da vida que carregará para sempre: o Mundial de Clubes em 2006, pelo qual o time do coração de Ricardo, Internacional, sagrou-se campeão.

Orgulhoso, mostra pelos corredores do Beira-Rio uma das fotos mais importantes da história do clube e que carrega o seu crédito: o clique do momento em que o então capitão, Fernandão (falecido em 2014), levantou a taça do torneio. Meses antes, contudo, mal sabia que participaria de um momento tão especial e marcante. Ele, inclusive, chegou a cogitar vender outra paixão, um Jeep Wyllis 1962, para bancar a viagem e ir como torcedor ao lado de um amigo. "No dia em que eu decidi fazer isso, me chamaram para contar que eu iria cobrir", revela, ao brincar que soltou a frase "Bá! Vocês me deram um Jeep".

Sem esconder a paixão pelo time, após 21 anos dedicados ao Grupo RBS, foi convidado para continuar fotografando o clube do coração, mas, a partir de então, exclusivamente. "Foi um baita convite, pois sempre tive vontade de trabalhar em um clube ou em uma assessoria de governo", conta.

Lugares da vida

A adoração pelo Inter é tamanha que ele, nascido e criado no bairro Menino Deus, muitas vezes matava aula na adolescência para assistir aos treinos do time. Como o estádio da equipe era perto, acabou se tornando sua segunda casa, isto quando não estava em Atlântida Sul - praia onde passava os três meses das férias escolares com o pai, Arnaldo, a mãe, Ana Maria, além dos irmãos Daniel e Luciano.

Além de estar sempre perto do time do coração, o bairro ainda o proporcionou outra paixão. Foi lá que conheceu, ainda na infância, a futura esposa, Lizia, com quem está há 21 anos. Chegaram a namorar na adolescência por um tempo, porém, foi anos mais tarde que o longo relacionamento se tornou mais próximo ainda.

É com ela que pega o jipe que possui, ao lado do cão de 14 anos da raça salsicha, Frederico, e sobe o Morro da Borussia, em Osório, para passar momentos na cabana que possui no local. "Estou sempre escondido lá", diverte-se, contando que, sempre que há uma folga, esquece-se de tudo e vai para o meio do mato, onde não há internet e o sinal do celular mal pega. Lá, tem um fogão a lenha, no qual prepara comida caseira em panelas de barro. Apesar de ser apaixonado por churrasco, também adora este momento, pois fala que a vida da casa gira em torno do fogo alto.

Viajar, aliás, é uma das paixões de Ricardo. Se não fosse fotógrafo, até pensaria em ser dono de uma pousada em algum lugar incrível pelo mundo. Por isso, adora pegar a câmera e desbravar lugares pelo Interior do Estado em seu jipe. Nele, carrega junto a bicicleta, prática que sempre utiliza quando está fora de Porto Alegre e, em alguns momentos, até mesmo na cidade. Um dos destinos favoritos é visitar um amigo em Cambará. "Gosto muito daquele lugar, inclusive já pensei em largar tudo e ir morar lá", diverte-se.

Apesar de não gostar de grandes metrópoles, tinha o sonho de passar a virada do ano em Copacabana para ver os fogos, além de ir no Circo Voador, também no Rio de Janeiro. Outro lugar que adora é Florianópolis, local que o abrigou por três anos. Quando a esposa passou em um concurso para trabalhar na capital de Santa Catarina, em 2008, pediu transferência e acabou atuando neste período no Diário Catarinense - veículo que também pertencia ao Grupo RBS na época.

Atrás das lentes

Hoje, com o dia a dia moldado de acordo com as atividades do plantel colorado, em jogos e horários de treinos, por exemplo, rotina não é algo que seja regular. Todavia, apesar de não ter muito tempo, sempre que consegue para para ver documentários e filmes de suspense - e nunca programas televisivos, os quais não assiste por opção. Só abre exceção para o futebol, único esporte que assiste hoje, pois a outra predileção, Fórmula 1, acabou parando de acompanhar.

Já as séries, por serem mais curtas, acabam sendo um passatempo nas viagens a trabalho, tanto na hora do voo quanto durante o descanso no hotel. No momento, acompanha 'El Marginal', argentina produzida pela Netflix. Ainda gosta de 'La Casa de Papel', 'Narcos' e 'Black Mirror'. "Eu acabo ficando concentrado junto com os jogadores", comenta.

Quando recém havia entrado no Inter, outro passatempo nestas horas era a leitura, porém hoje não consegue manter este hábito. Ainda assim, sempre que pode está com um livro na mão, principalmente se for biografias nacionais. Depois de ter conhecido a história de Cazuza, Rita Lee e Tim Maia, o momento é dedicado a ler mais sobre o ator Lázaro Ramos, a quem está conhecendo a trajetória.

Bem se vê que a preferência é por personagens brasileiros. O mesmo acontece em relação à música. Barão Vermelho não sai do som dele, e recentemente assistiu a um show no Rio de Janeiro. A playlist além desta nacionalidade, contempla melodias uruguaia e argentina, como as bandas 'Peralta Xingó', 'La Otra'.

Perfeccionista, ele, que se cobra muito em relação ao trabalho que faz, acredita que pensa no coletivo, isto porquê, ao seu ver, percebe que as pessoas estão muito egoístas nos últimos tempos. E é por isso que o desejo para o futuro não é algo somente para si, mas pelo menos metade do Rio Grande do Sul: ganhar mais uma Libertadores da América. Mas, é claro, que desta vez será muito mais prazeroso em vista de ser o fotógrafo oficial do time.

 

 

 

 

 

 

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