Estamos percebendo as mudanças de comportamento?

Por Elis Radmann

O dito popular diz que os dias estão tão acelerados que, às vezes, nem "vemos o tempo passar". Atualmente, o mesmo princípio pode ser aplicado às mudanças de opinião e às novas tendências comportamentais.

Vivemos um momento em que a opinião pública e o comportamento humano estão em constante transformação. Você já parou para pensar o quanto a sociedade mudou em termos de comportamento e opinião desde que entramos neste novo milênio? E se você analisar os últimos 10 anos verá que as mudanças são ainda mais perceptíveis.

Historicamente, a sociedade sempre passou por mudanças e transformações. O que está em debate é velocidade destas transformações em um cenário impulsionado pela tecnologia, em especial, por um equipamento que está em nossas mãos desde que acordamos, o senhor de nossas vidas: o smartphone.

No Rio Grande do Sul, nove em cada 10 gaúchos têm o seu aparelho celular, estão conectados à internet e participam de redes sociais.

Os que utilizam as redes sociais, o fazem todos os dias. Um hábito que começa desde o acordar, quando toca o despertador (aliás, o próprio celular), com a atualização no feed de notícias e vai se repetindo no correr do dia até a hora de se deitar.

O smartphone é muito mais do que um instrumento de comunicação, ele se tornou parte inerente ao indivíduo, integrando-o com familiares distantes, com os amigos, com os acontecimentos e dando-lhe a capacidade de gravar e registrar os fatos cotidianos ou ganhar tempo, pedindo um produto ou serviço por aplicativo. Literalmente, é uma ferramenta que concede ao indivíduo a 'voz do empoderamento', valorizando cada vez mais a própria pessoa.

E é a valorização do indivíduo que motiva as grandes mudanças comportamentais, o que chamamos de ampliação do individualismo. O smartphone propicia um espaço exclusivo para cada pessoa, por meio do qual cada um pode exprimir seus desejos, seus sentimentos e feitos. Pode postar o que comeu na janta, um cantinho de sua casa ou marcar o local onde está.

Este mundo paralelo, que chamamos de mundo virtual, nos influencia diretamente, mexendo com nossas emoções e afetando nossa inteligência emocional. A relação estabelecida nas redes sociais interfere em nossas escolhas e nos georreferência o tempo todo: nos localiza em qualquer lugar e a qualquer momento, nos lembra onde estivemos e com base nestas informações nos indica novos lugares para visitar e as compras que devemos fazer.

Neste mundo há os youtubers, os influenciadores digitais e as figuras públicas que ensinam constantemente novos rituais (como hashtags, OOTD, TBT) e as empresas provedoras de redes sociais (como Facebook, Instagram) que se mantém em constante atualização, oferecendo novas ferramentas para ampliar o relacionamento entre as pessoas e o culto ao individualismo.

A ampliação do individualismo pode ser considerada uma doença social em curso. Quanto mais utilizamos o mundo virtual, menor é a nossa relação com o mundo real, com a pessoa que está ao nosso lado e vamos nos mantendo em uma bolha.

Quanto mais ficamos na rede social menor será a nossa a chance de conversar com uma pessoa em um ônibus ou até mesmo de conhecer um amigo ou um amor. Este dilema se torna mais severo no âmbito das residências, onde as famílias compartilham cada vez menos sentimentos, acontecimento, ensinamentos e experiências, pois estão ocupadas com o seu celular.

Temos que desacelerar como indivíduos para nos compreendermos como sociedade!

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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