Qual a sua posição sobre privatizações?

Por Elis Radmann

Durante o processo eleitoral de 2018 se observou um fato muito curioso e que pode ser considerado como contraditório: a maioria da população se posicionou contrária às privatizações e os candidatos favoráveis a elas foram eleitos.

O IPO - Instituto Pesquisas de Opinião aplicou a seguinte questão para uma amostra representativa dos gaúchos: "De um modo geral, você é favor ou contra as privatizações, isto é, quer que empresas do governo sejam vendidas para empresas particulares? O(a) Sr.(a) é...?

Favorável = 23,0%

Contrário = 61,7%

Indiferente ou não sabe avaliar = 15,3%

De uma forma geral, este comportamento é percebido em todas as classes sociais, sendo que há uma tendência mais contrária entre a população com ensino fundamental e de baixa renda (de 1 a 2 salários mínimos renda familiar).

E você, já parou para pensar sobre qual a sua posição em relação às privatizações e qual a posição do candidato a quem você destinou o voto para governador e presidente? Há alguma contradição?

Para entender este fenômeno, realizou-se uma série de questionamentos qualitativos que demonstraram as seguintes lógicas dos eleitores:

1º) A maioria dos eleitores que é contra as privatizações não possui uma visão ideológica deste debate, não entra no mérito do estado máximo ou mínimo. Este debate é realizado apenas por ¼ dos eleitores contrários.

2º) São eleitores pragmáticos, que acreditam que o dinheiro das privatizações não deveria entrar no custeio da máquina pública, ou seja, "não se pode vender um bem para pagar salário atrasado". Não é à toa que o governador eleito dizia que: "não se pode vender os móveis da casa, ou almoço para comprar a jantar".

3º) São solidários aos funcionários públicos. Temem que as privatizações podem ampliar o desemprego do Estado ou deixar estes funcionários públicos relegados a segundo plano, mantendo o mesmo custo para o Estado. A empatia com os servidores públicos se ampliou nos últimos dois anos em função do sistemático atraso de salários.

4º) Se preocupam com o risco da corrupção ou da malversação de recursos, temem que os recursos se fragmentem ao longo de processos burocráticos e não sejam aplicados em áreas importantes, como saúde, segurança e educação. Na prática, relatam dúvidas sobre o destino dos recursos.

5º) Não acreditam que as empresas públicas dão prejuízos. Na percepção de uma parcela da população, o problema está na gestão de empresas públicas que tem monopólio de serviços (como no caso da empresa de energia).

Diante deste contexto de argumentos conjunturais, não há contradição em alguns eleitores se declararem contrários às privatizações e votarem em um governante favorável a elas.

Inclusive, os gaúchos podem aprovar o plebiscito sobre a privatização ou federalização de três estatais do Estado: CRM - Companhia Riograndense de Mineração, CEEE-D - Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica e a Sulgás.

Para tanto, o governador eleito, Eduardo Leite, terá que demonstrar aos gaúchos que:

  1. a) Estas empresas efetivamente dão prejuízos ou não são estratégicas;
  2. b) Explicar o que acontecerá com os servidores e prestadores de serviços;
  3. c) Dizer para onde serão destinados os recursos destas privatizações.

A maior parte da população confia que o governador eleito modernize o Estado e melhore a qualidade e o atendimento dos serviços, investindo os recursos em benefício da população. Tarefa hercúlea em um Estado com déficit no orçamento!

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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