Comunicação, Seleção, Eleição

Por José Antonio Vieira da Cunha

Na metade deste ano, quando o Grupo RBS anunciou a criação de um Conselho Editorial, a boa nova não era o conselho propriamente, pois organismos deste gênero sempre vicejaram pela Avenida Ipiranga, mas o fato de trazer para o cotidiano da empresa de comunicação a figura do Nelson Sirotsky. Controvérsias e percalços à parte, foi ele o grande líder do processo de modernização da empresa a partir dos anos 80, consolidando-a como líder na área de comunicação neste extremo sul do Brasil. Depois de afastar-se da frente executiva, sete anos atrás, retornou para ser "o guardião da linha editorial", no anúncio enfático da empresa.

Resultado disso, acredito, é a informação oficializada dias atrás, a criação de núcleos no interior do Estado para ampliar a cobertura, prometendo ir além das praças em que o grupo tem algum veículo de comunicação, televisão especialmente. O primeiro será Passo Fundo, dentro de uma estratégia de expansão focada no meio digital como forma de dar mais fortaleza ao relacionamento do grupo com a população gaúcha. 

É um esforço para atingir o âmago do localismo, enfatizando temas de interesse das comunidades. Representa ainda uma expansão empresarial que traz impacto positivo no mercado de trabalho, pois anunciou-se que a iniciativa a ser aplicada no início de 2023 envolverá a contratação de sete jornalistas para tocar uma redação "integrada e multiplataforma de GZH", com produções não só para o online mas também para os veículos tradicionais - jornal, rádio e televisão.

O projeto merece aplausos, pois seria uma sinalização prática de que o grupo midiático está decidido a apostar no seu veio original, a comunicação em sua essência. E junto veio o compromisso de que a RBS avalia investir em "outras plataformas de conteúdo nas próximas etapas do projeto". Hosanas. É uma aposta comprometida com o futuro, futuro que está baseado no ambiente digital.

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Não é porque se arvorou em cabo eleitoral do Bolsonaro, mas Neymar, que não deixa de ser um eterno menino no comportamento e nas ações, é o símbolo do fracasso da Seleção. Com seu individualismo exacerbado ao extremo, está longe de ser um Messi ou um Mbappé, os dois maiores destaques da Copa, que se destacam exatamente por entender que fazem parte de uma equipe. Quando o francês segue veloz pela ponta, sua preocupação número um, além de vencer o adversário, é achar um companheiro para coroar a jogada. Messi dribla consciente, e libera a bola com precisão e objetividade. Já nosso "menino" é fominha e adora firulas. (Um pequeno vídeo do jogo contra a Sérvia escracha seu individualismo: chega atrasado ao campo no início do segundo tempo, ingressa ainda vestindo a camisa e o jogo começa com ele agachado amarrando as chuteiras.) Seria positivo o rapaz fazer um estágio em algum time de Marrocos, onde poderia aprender que só talento não vence jogo; é preciso também ter alma, disciplina e comprometimento. 

O resumo da Copa de 2022 é óbvio: a Argentina teve Messi, a França teve Mbappé e o Brasil não teve Neymar.

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O Brasil de hoje é "um país fracionado, dividido, com gosto de sangue na boca, fígado azedo, derramamento de bílis. Isso não favorece a produção de neurônios", disse pouco antes da eleição presidencial o ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto. Era mesmo a interpretação adequada para aqueles momentos que vivemos durante quase todo 2022. Vamos acreditar que, passado o processo eleitoral e desmoralizada a teoria da fraude nas urnas, entre tantas mentiras estúpidas, possamos viver um 2023 com menos ofensas e belicosidade e mais civilidade e harmonia. Oremos por isso. Aos fiéis leitores, fica o desejo de um grande Ano Novo com suas renovadas esperanças.

Autor
José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem quatro netos. E-mail para contato: [email protected]

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