Era uma vez um...

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Credita-se a Edgar Allan Poe as primeiras normas do gênero literário que alcançou seu auge na segunda metade do século XIX - a estória curta. A partir de então, autores como Anton Tchekhov, Guy de Maupassant e O'Henry produziram deliciosas obras-primas que consagraram o conto como uma instigante e ao mesmo tempo, desafiante forma de literatura. Que alguns críticos literários afirmam ser o legítimo sucessor do romance clássico - uma proposta de leitura condensada, identificada com os tempos modernos, falta de tempo e a revolução tecnológica.

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Não demorou muito para o novo conceito literário ocupar espaços generosos em revistas mensais e jornais diários, que foram em busca de nomes como Arthur Conan Doyle, Virginia Wolf, Ernest Hemingway, Katherine Mansfield e William Faulkner. No Brasil, Machado de Assis e Aluísio de Azevedo frequentaram com assiduidade diários e semanários. Em seu 'Maravilhas do Conto Universal', o crítico Edgard Cavalheiro afirma que o conto passou a gênero urbano a partir da década de 1920, rompendo com a linguagem do romance tradicional.

A narrativa se torna mais objetiva, a frase mais enxuta, a comunicação, mais breve. Nada de novo do que Edgar Allan Poe escreveu, cem anos atrás:

"É preciso inventar uma literatura curta, concentrada, penetrante, concisa, ao invés de extensa, verbosa, pormenorizada (...)."

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O desafio de Allan Poe foi aceito por muitos, que tentaram levar ao extremo as recomendações do autor de 'O Corvo'. E a partir dos anos 1990, surge o que foi rotulado como microconto, com um forte viés de minimalismo. Que pouco inovaria em relação às incursões de Leon Tolstoi, Jorge Luis Borges, Bioy Casares, Julio Cortázar e Ernest Hemingway. Mesmo assim, coube a Augusto Monterroso, um escritor guatemalteco falecido em 2003, o crédito de precursor da novidade, com 'O Dinossauro', na época apontado como o mais curto da literatura mundial:

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."

Incontáveis foram as tentativas de repetir a façanha, nem sempre com o mesmo resultado. Algumas mais conhecidas:

"O último homem na Terra sentou-se sozinho na sala. Então, ouviu uma batida na porta."

Frederic Brown.

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"Cuidado, querida, está carregada", disse ele, entrando no quarto."

James Whitmore.

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"Sou você no futuro, criança. Não chore."

Stephen Baxter.

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"A Máquina do Tempo chegou ao Futuro. Mas não havia ninguém."

Harry Harrison.

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"Eu ainda faço café para dois."

Zak Nelson.

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No entanto, qualquer lista de microcontos deve obrigatoriamente incluir esta obra-prima de linguagem mínima, que apesar de autoria contestada, continua comovedora:

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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