O eleitor tem mais dúvida do que certeza

Por Elis Radmann

A eleição 2018 é uma eleição ímpar, em todos os sentidos!

Em primeiro lugar, pelo alto nível de descrença dos eleitores. Desde a eleição de 2014, muita coisa aconteceu. Iniciou-se a operação Lava a Jato, a presidente Dilma Rousseff foi acusada de cometer "pedaladas fiscais" e houve o Impeachment.

O vice-presidente Michel Temer assumiu diante de acusações de golpe e de envolvimento com corrupção. Houve o acirramento da crise econômica, com aumento do desemprego e diminuição do poder de compra.

Neste contexto, houve a ampliação da violência e a população sentiu na pele o aumento da sensação de insegurança, ocorreu o agravamento da crise financeira de alguns estados e municípios, resultando em atrasos sistemáticos de salários.

Políticos de vários partidos foram acusados de fazer parte de esquemas de corrupção, muitos desses foram presos e condenados, incluindo um ex-presidente.

Diante desta pequena retrospectiva do último ciclo da política brasileira, não é difícil compreender porque a maioria dos eleitores mostra-se decepcionada com a política e com a percepção de que a maioria dos políticos atuam em causa própria e se beneficiam com os conchavos partidários, mantendo a velha "toma lá dá cá".

Em segundo lugar, na percepção dos eleitores, as opções de candidatos são muito limitadas ou representam mais do mesmo. Os eleitores associam a maioria dos candidatos a presidente com a velha política: candidatos que fazem conchavos com políticos acusados por corrupção, candidatos denunciados por corrupção, que prometem o que não podem cumprir, ou candidatos sem capacidade de resolver os problemas básicos do País.

Este cenário faz com que as campanhas cresçam em torno da crença e da descrença, entre dois candidatos com mais rejeição do que intenção de voto:

- Uma campanha popular, disputada entre os que gostam e os que não gostam de Bolsonaro = Com o impedimento da candidatura do ex-presidente Lula, Jair Bolsonaro passou a ser o candidato com maior % de intenção de voto e o candidato com maior % de rejeição. É o que agrega o maior % de eleitores esperançosos, em função do debate da moralidade e segurança pública. Após o atentado contra sua vida, ganhou a adesão de eleitores comovidos, que não encontram segurança em outros candidatos. Para estes, mesmo que Bolsonaro seja um risco, é a disruptura com a velha política. É importante registrar que, com o atentado, o candidato ganhou espaço privilegiado no noticiário e cresce nas pesquisas a partir do movimento espontâneo dos eleitores.

A rejeição a ele se mobiliza pela questão de gênero, com o argumento de que o candidato desqualifica as mulheres ou de que o mesmo não tem capacidade, tendo em vista o seu desempenho parlamentar.

- Uma campanha entre os que defendem Lula e o antipetismo = Os eleitores de Lula reconhecem em Haddad a possibilidade de retomada dos programas sociais. Trata-se de pessoas que têm gratidão pelos feitos do governo Lula na área social e que mantêm a esperança de que haverá retomada destes projetos e do crescimento da economia.

De outro lado, um movimento antipetista, mobilizado por dois grupos: o de pessoas com ideologias contrárias e, em especial, o grupo daqueles que acreditaram no PT e se sentiram traídos pela omissão ou associação da sigla com os escândalos de corrupção.

E, no meio desta disputa, 1/3 dos eleitores observam e avaliam se devem manter o voto da razão, o voto do coração ou, ainda, se migram para um voto útil.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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